{"id":1086,"date":"2022-05-11T19:23:30","date_gmt":"2022-05-11T19:23:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=1086"},"modified":"2025-04-16T10:37:35","modified_gmt":"2025-04-16T10:37:35","slug":"as-tecnicas-do-corpo-mauss-2003-1934","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2022\/05\/11\/as-tecnicas-do-corpo-mauss-2003-1934\/","title":{"rendered":"As t\u00e9cnicas do corpo (Mauss 2003 [1934])"},"content":{"rendered":"<p>MAUSS, Marcel. 2003. As t\u00e9cnicas do corpo. In: <em>Sociologia e Antropologia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cosac &#038; Naify, pp.399-422. [1934]<\/p>\n<p>[Comunicac\u0327a\u0303o apresentada \u00e0 Sociedade de Psicologia em 17 de maio de 1934. ]<\/p>\n<p><strong>SUM\u00c1RIO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>I. Noc\u0327a\u0303o de te\u0301cnica do corpo<br \/>\nII. Princi\u0301pios de classificac\u0327a\u0303o das te\u0301cnicas do corpo<br \/>\nIII. Enumerac\u0327a\u0303o biogra\u0301fica das te\u0301cnicas do corpo<br \/>\nIV. Considerac\u0327o\u0303es gerais <\/p><\/blockquote>\n<h4>I. Noc\u0327a\u0303o de te\u0301cnica do corpo<\/h4>\n<p><strong>ESTUDO INDUTIVO-DESCRITIVO (do concreto-descritivo [<em>as<\/em> t\u00e9cnicas] ao abstrato-te\u00f3rico [<em>a<\/em> t\u00e9cnica])<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eu digo <em>as<\/em> te\u0301cnicas do corpo, porque se pode fazer a teoria <em>da<\/em> te\u0301cnica do corpo a partir de um estudo, de uma exposic\u0327a\u0303o, de uma descric\u0327a\u0303o pura e simples <em>das<\/em> te\u0301cnicas do corpo. Entendo por essa expressa\u0303o as maneiras pelas quais os homens, de sociedade a sociedade, de uma forma tradicional, sabem servir-se de seu corpo. Em todo caso, conve\u0301m proceder do concreto ao abstrato, na\u0303o inversamente. (Mauss 2003:401)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DEFINI\u00c7\u00c3O DE \u201cT\u00c9CNICAS DO CORPO\u201d<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Entendo por essa expressa\u0303o [i.e.: \u201ct\u00e9cnicas do corpo\u201d] as maneiras pelas quais os homens, de sociedade a sociedade, de uma forma tradicional, sabem servir-se de seu corpo. (Mauss 2003:401)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>T\u00c9CNICAS DO CORPO COMO TERRENO AINDA DESCONHECIDO E PLENO DE DESCOBERTAS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eu sabia perfeitamente que a marcha, o nado, por exemplo, que coisas desse tipo eram <strong>especi\u0301ficas a sociedades determinadas<\/strong>; que os poline\u0301sios na\u0303o nadam como no\u0301s, que minha gerac\u0327a\u0303o na\u0303o nadou como nada a gerac\u0327a\u0303o atual. Mas que feno\u0302menos sociais eram esses? Eram feno\u0302menos sociais &#8220;diversos&#8221;, e, como essa rubrica e\u0301 um horror, pensei va\u0301rias vezes nesse &#8220;diversos&#8221;, ao menos toda vez que fui obrigado a falar disso, de tempos em tempos. (Mauss 2003:401-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>G\u00caNESE DO \u201cPROBLEMA\u201d DAS T\u00c9CNICAS DO CORPO I &#8211; NADAR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Um exemplo nos fara\u0301 compreender isso imediatamente, a no\u0301s, psico\u0301logos, bio\u0301logos, socio\u0301logos. <strong>Outrora<\/strong> nos ensinavam a mergulhar depois de ter aprendido a nadar. E, quando nos ensinavam a mergulhar, nos diziam para fechar os olhos e depois abri-los dentro d&#8217;a\u0301gua. <strong>Hoje<\/strong> a te\u0301cnica e\u0301 inversa. Comec\u0327a-se toda aprendizagem habituando a crianc\u0327a a ficar dentro d&#8217;a\u0301gua de olhos abertos. Assim, antes mesmo que nadem, as crianc\u0327as sa\u0303o treinadas sobretudo a controlar reflexos perigosos mas instintivos dos olhos, sa\u0303o antes de tudo familiarizadas com a a\u0301gua, para inibir seus medos, criar uma certa seguranc\u0327a, selecionar paradas e movimentos. Ha\u0301 portanto <strong>uma te\u0301cnica do mergulho e uma te\u0301cnica da educac\u0327a\u0303o do mergulho<\/strong> que foram descobertas em meu tempo. E vejam que se trata claramente de um ensino te\u0301cnico, e que ha\u0301, como para toda te\u0301cnica, uma aprendizagem do nado. Por outro lado, nossa gerac\u0327a\u0303o, aqui, assistiu a uma mudanc\u0327a completa de te\u0301cnica: vimos o nado a brac\u0327adas e com a cabec\u0327a fora d&#8217;a\u0301gua ser substitui\u0301do pelas diferentes espe\u0301cies de <em>crawl<\/em>. Ale\u0301m disso, perdeu-se o costume de engolir a\u0301gua e de cuspi-la. Pois <strong>os nadadores se consideravam, em meu tempo, como espe\u0301cies de barcos a vapor<\/strong>. Era estu\u0301pido, mas, enfim, ainda fac\u0327o esse gesto: <strong>na\u0303o consigo desembarac\u0327ar-me de minha te\u0301cnica<\/strong>. Eis ai\u0301, portanto, uma te\u0301cnica corporal especi\u0301fica, uma arte gi\u0301mnica aperfeic\u0327oada em nosso tempo. (Mauss 2003:402)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>G\u00caNESE DO \u201cPROBLEMA\u201d DAS T\u00c9CNICAS DO CORPO II &#8211; CAVAR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[D]urante a guerra pude fazer numerosas observac\u0327o\u0303es sobre essa especificidade das te\u0301cnicas. Como a de cavar.<strong> As tropas inglesas com as quais eu estava na\u0303o sabiam servir-se de pa\u0301s francesas<\/strong>, o que obrigava a substituir 8 mil pa\u0301s por divisa\u0303o quando rendi\u0301amos uma divisa\u0303o francesa, <strong>e vice-versa<\/strong>. Eis ai\u0301, de forma evidente, como uma habilidade manual so\u0301 se aprende lentamente. Toda te\u0301cnica propriamente dita tem sua forma. (Mauss 2003:403)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/MAUSS_pas.png\" alt=\"\" \/><br \/>\nP\u00e1s francesa (esquerda) e inglesa (direita).<\/p>\n<p><strong>G\u00caNESE DO \u201cPROBLEMA\u201d DAS T\u00c9CNICAS DO CORPO III &#8211; MARCHAR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Todos sabeis que a infantaria brita\u0302nica marcha a um passo diferente do nosso: diferenc\u0327a de frequ\u0308e\u0302ncia, com uma outra durac\u0327a\u0303o. Na\u0303o falo, por enquanto, do balanceio ingle\u0302s, nem da ac\u0327a\u0303o do joelho etc. Ora, o regimento de Worcester, tendo feito proezas considera\u0301veis durante a batalha do Aisne, ao lado da infantaria francesa, pediu a autorizac\u0327a\u0303o real para ter toques de clarins e baterias francesas, uma banda de corneteiros e de tambores franceses. O resultado foi pouco encorajador. [&#8230;] Tudo era discordante em sua marcha. Quando tentava marchar direito, era a mu\u0301sica que na\u0303o marcava o passo. Com isso, <strong>o regimento de Worcester foi obrigado a suprimir os clarins franceses<\/strong>. (Mauss 2003:403)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Uma espe\u0301cie de revelac\u0327a\u0303o me veio no hospital. Eu estava doente em Nova York [em 1926] e me perguntava onde tinha visto moc\u0327as andando como minhas enfermeiras. Eu tinha tempo para refletir sobre isso. Descobri, por fim, que fora no cinema. De volta a\u0300 Franc\u0327a, passei a observar, sobretudo em Paris, a frequ\u0308e\u0302ncia desse andar; as jovens eram francesas e caminhavam tambe\u0301m dessa maneira. De fato, os <strong>modos de andar americanos, grac\u0327as ao cinema, comec\u0327avam a se disseminar entre no\u0301s<\/strong>. Era uma ide\u0301ia que eu podia generalizar. (Mauss 2003:403-4)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Num livro de Elsdon Best, publicado na Franc\u0327a em 1925, acha-se um documento nota\u0301vel sobre a maneira de andar da mulher maori (Nova Zela\u0302ndia). [&#8230;] &#8220;As mulheres indi\u0301genas adotam um certo &#8216;<em>gait<\/em>&#8216; (a palavra inglesa e\u0301 deliciosa): a saber, um balanceio solto e no entanto articulado dos quadris que nos parece desgracioso, mas que e\u0301 extremamente admirado pelos Maori. As ma\u0303es exercitavam (o autor diz &#8220;<em>drill<\/em>\u201d) suas filhas nessa maneira de andar que e\u0301 chamada &#8216;<em>onioi<\/em>&#8216;. Ouvi ma\u0303es dizerem a suas filhas (eu traduzo): &#8216;na\u0303o esta\u0301s fazendo o <em>onioi<\/em>&#8216;, quando uma menina deixava de fazer esse balanceio.&#8221; (<em>The Maori<\/em>, I, p. 408-9, cf. p. 135.) Era uma maneira adquirida, e na\u0303o uma maneira natural de andar. Em suma, <strong>talvez na\u0303o exista &#8220;maneira natural&#8221; no adulto<\/strong>. E com mais raz\u00e3o ainda quando outros fatos te\u0301cnicos interve\u0301m: no que se refere a no\u0301s, o fato de andarmos calc\u0327ados transforma a posic\u0327a\u0303o de nossos pe\u0301s; sentimos isso bem ao andarmos descalc\u0327os. (Mauss 2003:405-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>G\u00caNESE DO \u201cPROBLEMA\u201d DAS T\u00c9CNICAS DO CORPO IV &#8211; H\u00c1BITOS e ATITUDES CORPORAIS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Mas o mesmo vale para toda atitude do corpo. Cada sociedade tem seus ha\u0301bitos pro\u0301prios. (Mauss 2003:403)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A posic\u0327a\u0303o dos brac\u0327os e das ma\u0303os enquanto se anda e\u0301 uma idiossincrasia social, e na\u0303o simplesmente um produto de na\u0303o sei que arranjos e mecanismos puramente individuais, quase inteiramente psi\u0301quicos. Por exemplo: creio poder reconhecer assim uma jovem que foi educada no convento. Ela anda, geralmente, com as ma\u0303os fechadas. E lembro-me ainda de meu professor do gina\u0301sio interpelando-me: &#8220;Seu animal! Andas o tempo todo com as manoplas abertas!&#8221;. Portanto, existe igualmente uma educac\u0327a\u0303o do andar. (Mauss 2003:404)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[H]a\u0301 <em>posic\u0327o\u0303es da ma\u0303o<\/em>, em repouso, convenientes ou inconvenientes. Assim, podeis adivinhar com certeza, se uma crianc\u0327a conserva a\u0300 mesa os cotovelos junto ao corpo e, quando na\u0303o come, as ma\u0303os sobre os joelhos, que ela e\u0301 <strong>inglesa<\/strong>. Uma crianc\u0327a <strong>francesa<\/strong> na\u0303o se comporta mais assim: abre os cotovelos em leque e os apoia sobre a mesa (Mauss 2003:404)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>G\u00caNESE DO \u201cPROBLEMA\u201d DAS T\u00c9CNICAS DO CORPO V \u2013 CORRER<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Imaginem que meu professor de gina\u0301stica, um dos melhores formados em Joinville, <strong>por volta de 1860<\/strong>, ensinou-me a correr com os punhos colados ao corpo: movimento completamente contradito\u0301rio a todos os movimentos da corrida; <strong>foi preciso que eu visse os corredores profissionais de 1890<\/strong> para compreender que devia correr de outro modo. (Mauss 2003:404)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>G\u00caNESE DO \u201cPROBLEMA\u201d DAS T\u00c9CNICAS DO CORPO VI \u2013 MAGIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eis aqui [&#8230;] uma fo\u0301rmula de ritual de cac\u0327a e ritual de corrida ao mesmo tempo. Sabe-se que o australiano consegue correr atra\u0301s de cangurus, emas, ca\u0303es selvagens, ate\u0301 deixa\u0301-los exaustos. [&#8230;] Um desses rituais de corrida, observado ha\u0301 ja\u0301 cem anos, e\u0301 o da corrida ao ca\u0303o selvagem, o dingo, nas tribos dos arredores de Adelaide. O cac\u0327ador na\u0303o cessa de cantar a seguinte fo\u0301rmula: [&#8230;] Numa outra cerimo\u0302nia, a da cac\u0327a ao opossum, o indivi\u0301duo leva na boca um pedac\u0327o de cristal de rocha (<em>kawemukka<\/em>), pedra ma\u0301gica entre todas, e canta uma fo\u0301rmula do mesmo ge\u0302nero, e <strong>e\u0301 assim convencido<\/strong> de que pode desaninhar o gamba\u0301, trepar e ficar suspenso na a\u0301rvore pelo cinto, perseguir, pegar e finalmente matar essa cac\u0327a difi\u0301cil. [&#8230;] [O] que queremos destacar agora e\u0301 a confianc\u0327a, o <em>momentum<\/em> psicolo\u0301gico capaz de associar-se a um ato que e\u0301 antes de tudo uma proeza de resiste\u0302ncia biolo\u0301gica, obtida grac\u0327as a palavras e a um objeto ma\u0301gico. [&#8230;] Ato te\u0301cnico, ato fi\u0301sico, ato ma\u0301gico-religioso confundem-se para o agente. (Mauss 2003:406-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>HABITUS (disposi\u00e7\u00f5es-faculdades adquiridas) \u2013 (anti-Bergson-mem\u00f3ria\/Tarde-imita\u00e7\u00e3o-repeti\u00e7\u00e3o?)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Assim, durante muitos anos tive a noc\u0327a\u0303o da natureza social do &#8220;<em>habitus<\/em>&#8220;. [&#8230;] A palavra exprime, infinitamente melhor que &#8220;ha\u0301bito&#8221;, a &#8220;<em>exis<\/em>&#8221; [hexis], o &#8220;adquirido&#8221; e a &#8220;faculdade&#8221; de Aristo\u0301teles (que era um psico\u0301logo). Ela na\u0303o designa os ha\u0301bitos metafi\u0301sicos, a &#8220;memo\u0301ria&#8221; misteriosa, tema de volumosas ou curtas e famosas teses. Esses &#8220;ha\u0301bitos&#8221; variam na\u0303o simplesmente com os indivi\u0301duos e suas imitac\u0327o\u0303es, <strong>variam sobretudo com as sociedades, as educac\u0327o\u0303es, as convenie\u0302ncias e as modas, os presti\u0301gios<\/strong>. E\u0301 preciso ver te\u0301cnicas e a obra da <strong>raza\u0303o pra\u0301tica coletiva e individual<\/strong>, la\u0301 onde geralmente se ve\u0302 apenas a alma e suas faculdades de repetic\u0327a\u0303o. (Mauss 2003:404)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A IMITA\u00c7\u00c3O PRESTIGIOSA e o TR\u00cdPLICE \u201cHOMEM TOTAL\u201d (bio-psico-sociol\u00f3gico)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[N]a\u0303o se podia ter uma visa\u0303o clara de todos esses fatos, da corrida, do nado etc., sena\u0303o fazendo intervir uma tri\u0301plice considerac\u0327a\u0303o em vez de uma u\u0301nica, fosse ela meca\u0302nica e fi\u0301sica, como uma teoria <strong>anato\u0302mica e fisiolo\u0301gica<\/strong> da marcha, ou, ao contra\u0301rio, <strong>psicolo\u0301gica<\/strong> ou <strong>sociolo\u0301gica<\/strong>. E\u0301 o tri\u0301plice ponto de vista, o do &#8220;homem total&#8221;, que e\u0301 necessa\u0301rio. (Mauss 2003:405)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Em todos esses elementos da arte de utilizar o corpo humano os fatos <em>de educac\u0327a\u0303o<\/em> predominavam. A noc\u0327a\u0303o de educac\u0327a\u0303o podia sobrepor-se a\u0300 de imitac\u0327a\u0303o. [&#8230;] O que se passa e\u0301 uma <strong>imitac\u0327a\u0303o prestigiosa<\/strong>. A crianc\u0327a, como o adulto, imita atos bem-sucedidos que ela viu ser efetuados por pessoas nas quais confia e que te\u0302m autoridade sobre ela. O ato se impo\u0303e de fora, do alto, mesmo um ato exclusivamente biolo\u0301gico, relativo ao corpo. O indivi\u0301duo assimila a se\u0301rie dos movimentos de que e\u0301 composto o ato executado diante dele ou com ele pelos outros. [&#8230;] E\u0301 precisamente nessa noc\u0327a\u0303o de presti\u0301gio da pessoa que faz o ato ordenado, autorizado, provado, em relac\u0327a\u0303o ao indivi\u0301duo imitador, que se verifica todo o <strong>elemento social<\/strong>. No ato imitador que se segue, verificam-se o elemento psicolo\u0301gico e o elemento biolo\u0301gico. [&#8230;] Mas o todo, o conjunto e\u0301 condicionado pelos tre\u0302s elementos indissoluvelmente misturados. (Mauss 2003:405)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[O] psico\u0301logo sozinho na\u0303o podera\u0301 oferecer sena\u0303o explicac\u0327o\u0303es duvidosas e precisara\u0301 da colaborac\u0327a\u0303o de duas cie\u0302ncias vizinhas: fisiologia, sociologia. (Mauss 2003:409)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O ERRO FUNDAMENTAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Todos cometemos, e cometi durante muitos anos, o <strong>erro fundamental<\/strong> de so\u0301 considerar que ha\u0301 te\u0301cnica quando ha\u0301 instrumento. Era preciso voltar a noc\u0327o\u0303es antigas, aos dados plato\u0302nicos sobre a te\u0301cnica, quando Plata\u0303o falava de uma te\u0301cnica da mu\u0301sica e em particular da danc\u0327a, e ampliar essa noc\u0327a\u0303o. (Mauss 2003:407)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DEFINI\u00c7\u00c3O DE \u201cT\u00c9CNICA\u201d (ato tradicional eficaz de ordem mec\u00e2nica)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Chamo te\u0301cnica um ato <em>tradicional eficaz<\/em> (e vejam que nisso na\u0303o difere do ato ma\u0301gico, religioso, simbo\u0301lico). Ele precisa ser <em>tradicional e eficaz<\/em>. Na\u0303o ha\u0301 te\u0301cnica e na\u0303o ha\u0301 transmissa\u0303o se na\u0303o houver tradic\u0327a\u0303o. Eis em que\u0302 o homem se distingue antes de tudo dos animais: pela transmissa\u0303o de suas te\u0301cnicas e muito provavelmente por sua transmissa\u0303o oral. [&#8230;] Mas qual e\u0301 a diferenc\u0327a entre o ato tradicional eficaz da religia\u0303o, o ato tradicional, eficaz, simbo\u0301lico, juri\u0301dico, os atos da vida em comum, os atos morais, de um lado, e o ato tradicional das te\u0301cnicas, de outro? E\u0301 que este u\u0301ltimo e\u0301 sentido pelo autor <strong><em>como um ato de ordem meca\u0302nica, fi\u0301sica ou fi\u0301sico-qui\u0301mica<\/em><\/strong>, e e\u0301 efetuado com esse objetivo. (Mauss 2003:407)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CORPO COMO PRIMEIRO OBJETO-MEIO T\u00c9CNICO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O corpo e\u0301 o primeiro e o mais natural instrumento do homem. Ou, mais exatamente, sem falar de instrumento: o primeiro e o mais natural <strong>objeto te\u0301cnico<\/strong>, e ao mesmo tempo <strong>meio te\u0301cnico<\/strong>, do homem, e\u0301 seu corpo. [&#8230;] Antes das te\u0301cnicas de instrumentos, ha\u0301 o conjunto das te\u0301cnicas do corpo. (Mauss 2003:407)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Essa adaptac\u0327a\u0303o constante a um objetivo fi\u0301sico, meca\u0302nico, qui\u0301mico (por exemplo, quando bebemos) e\u0301 efetuada numa se\u0301rie de atos montados [&#8230;] no indivi\u0301duo na\u0303o simplesmente por ele pro\u0301prio mas por toda a sua educac\u0327a\u0303o, por toda a sociedade da qual faz parte, conforme o lugar que nela ocupa. (Mauss 2003:408)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CORPO SIMB\u00d3LICO (s\u00edmbolo corporificado)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[T]odas essas te\u0301cnicas se ordenam muito facilmente num [&#8230;] sistema de montagens simbo\u0301licas [, num] concurso do corpo e dos si\u0301mbolos morais ou intelectuais. (Mauss 2003:408)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REFLEXIVIDADE e OLHAR (fato social)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Olhemos para no\u0301s mesmos, neste momento. Tudo em no\u0301s todos e\u0301 imposto. Estou a conferenciar convosco; vedes isso em minha postura sentada e em minha voz, e me escutais sentados e em sile\u0302ncio. Temos um conjunto de atitudes permitidas ou na\u0303o, naturais ou na\u0303o. Assim, atribuiremos valores diferentes ao fato de olhar fixamente: si\u0301mbolo de cortesia no exe\u0301rcito, de descortesia na vida corrente. (Mauss 2003:408)<\/p><\/blockquote>\n<h4>II. Princi\u0301pios de classificac\u0327a\u0303o das te\u0301cnicas do corpo<\/h4>\n<p><strong>AS TdC (para al\u00e9m da divis\u00e3o do trabalho) SE DIVIDEM-VARIAM SEMPRE POR SEXO e IDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>[SEXO]<\/strong> Tomemos a maneira de fechar o punho. O homem fecha normalmente o punho com o polegar para fora, a mulher com o polegar para dentro; talvez porque ela na\u0303o foi educada para isso, mas estou certo de que, se a educassem, ela teria dificuldades. O soco, o arremesso do golpe, na mulher, sa\u0303o frouxos. E todos sabem que, ao lanc\u0327ar uma pedra, o arremesso da mulher e\u0301 na\u0303o apenas frouxo, mas sempre diferente do do homem: plano vertical em vez de horizontal. [&#8230;] Talvez se trate aqui de duas instruc\u0327o\u0303es. Pois ha\u0301 uma sociedade dos homens e uma sociedade das mulheres. (Mauss 2003:409)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>[IDADE]<\/strong> A crianc\u0327a se agacha normalmente. No\u0301s na\u0303o sabemos mais nos agachar. Considero isso um absurdo e uma inferioridade de nossas rac\u0327as, civilizac\u0327o\u0303es, sociedades. [&#8230;] A posic\u0327a\u0303o agachada e\u0301, em minha opinia\u0303o, uma posic\u0327a\u0303o interessante, que pode ser conservada numa crianc\u0327a. E\u0301 um gravi\u0301ssimo erro proibir-lhe. Toda a humanidade, exceto nossas sociedades, a conservou. (Mauss 2003:409)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SOMATIZA\u00c7\u00c3O DAS PR\u00c1TICAS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ha\u0301 portanto coisas que acreditamos ser da ordem da hereditariedade e que sa\u0303o, na verdade, de ordem fisiolo\u0301gica, de ordem psicolo\u0301gica e de ordem social. Uma certa forma dos tendo\u0303es e mesmo dos ossos na\u0303o e\u0301 sena\u0303o uma consequ\u0308e\u0302ncia de uma certa forma de apoiar-se e firmar-se. (Mauss 2003:410)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AS TdC (para al\u00e9m da divis\u00e3o do trabalho) TAMB\u00c9M PODEM SE CLASSIFICAR POR RENDIMENTO (adestramento, habilidade, destreza, presen\u00e7a de esp\u00edrito)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>O adestramento, como a montagem de uma ma\u0301quina<\/strong>, e\u0301 a busca, a aquisic\u0327a\u0303o de um rendimento. Aqui, e\u0301 um rendimento humano. Essas te\u0301cnicas sa\u0303o portanto as normas humanas do adestramento humano. <strong>Assim como fazemos com os animais, os homens as aplicaram voluntariamente a si mesmos e a seus filhos<\/strong>. As crianc\u0327as foram provavelmente as primeiras criaturas assim adestradas, antes dos animais, que precisaram primeiro ser domesticados. Numa certa medida, portanto, eu poderia comparar essas te\u0301cnicas, elas mesmas e sua transmissa\u0303o, a adestramentos, classificando-as por ordem de efica\u0301cia. (Mauss 2003:410)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AS TdC (para al\u00e9m da divis\u00e3o do trabalho) TAMB\u00c9M PODEM SE CLASSIFICAR ENFIM POR TRANSMISS\u00c3O (educa\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[Homenagem a Hertz] A educac\u0327a\u0303o da crianc\u0327a e\u0301 repleta daquilo que chamam detalhes, mas que sa\u0303o essenciais. Veja-se o problema da ambidestria, por exemplo: observamos mal os movimentos da ma\u0303o direita e os da ma\u0303o esquerda, e sabemos mal como sa\u0303o ensinados. (Mauss 2003:411)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MODOS DE VIDA (adestramento, imita\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ha\u0301 raza\u0303o de estudar todos os modos de adestramento, de imitac\u0327a\u0303o e, particularmente, essas formas fundamentais que podemos chamar o modo de vida, o <em>modus<\/em>, o <em>tonus<\/em>, a &#8220;mate\u0301ria&#8221;, as &#8220;maneiras&#8221;, a &#8220;feic\u0327a\u0303o&#8221;.  (Mauss 2003:411)<\/p><\/blockquote>\n<h4>III. Enumerac\u0327a\u0303o biogra\u0301fica das te\u0301cnicas do corpo<\/h4>\n<blockquote><p>Vamos simplesmente seguir mais ou menos as idades do homem, a biografia normal de um indivi\u0301duo, para dispor as te\u0301cnicas que lhe dizem respeito ou que lhe ensinam. (Mauss 2003:412)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>1. Te\u0301cnicas do nascimento e da obstetri\u0301cia (em p\u00e9, deitada de costas (n\u00f3s), de quatro)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ha\u0301 te\u0301cnicas do parto, seja por parte da ma\u0303e, seja por parte de seus auxiliares; do modo de pegar a crianc\u0327a, da ligadura e corte do corda\u0303o umbilical; cuidados com a ma\u0303e, com a crianc\u0327a. Essas sa\u0303o questo\u0303es ja\u0301 bastante considera\u0301veis. Eis algumas outras: a escolha da crianc\u0327a, o abandono dos fracos, a condenac\u0327a\u0303o a\u0300 morte dos ge\u0302meos sa\u0303o momentos decisivos na histo\u0301ria de uma rac\u0327a. Tanto na histo\u0301ria antiga como nas outras civilizac\u0327o\u0303es, o reconhecimento da crianc\u0327a e\u0301 um acontecimento capital. (Mauss 2003:412)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>2. Te\u0301cnicas da infa\u0302ncia<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Atitudes dos dois seres em relac\u0327a\u0303o: a ma\u0303e e a crianc\u0327a. (Mauss 2003:412); A humanidade pode perfeitamente ser dividida em povos com berc\u0327os e povos sem berc\u0327os. Pois ha\u0301 te\u0301cnicas do corpo que supo\u0303em um instrumento. Nos pai\u0301ses com berc\u0327os situam-se quase todos os povos do hemisfe\u0301rio norte (Mauss 2003:413)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em>Criac\u0327a\u0303o e alimentac\u0327a\u0303o da crianc\u0327a<\/em>: Consideremos a crianc\u0327a: a succ\u0327a\u0303o, a maneira de transporta\u0301-la etc. A histo\u0301ria desse transporte e\u0301 muito importante. A crianc\u0327a transportada junto a\u0300 pele da ma\u0303e durante dois ou tre\u0302s anos tem uma atitude completamente diferente frente a ela do que uma crianc\u0327a na\u0303o transportada; ela tem um contato com sua ma\u0303e muito diferente que o da crianc\u0327a entre no\u0301s. Pendura-se ao pescoc\u0327o, ao ombro, aos quadris dela. E\u0301 uma gina\u0301stica nota\u0301vel, essencial para toda a sua vida. Assim como, para a ma\u0303e, e\u0301 uma outra gina\u0301stica transporta\u0301-la. Parecem originar-se aqui, inclusive, estados psi\u0301quicos desaparecidos de nossas infa\u0302ncias. (Mauss 2003:412-3)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em>Desmame<\/em>: Amamentac\u0327a\u0303o muito longa, geralmente de dois a tre\u0302s anos. Obrigac\u0327a\u0303o de amamentar, a\u0300s vezes mesmo obrigac\u0327a\u0303o de amamentar animais. (Mauss 2003:413)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em>A crianc\u0327a apo\u0301s o desmame<\/em>: Ela sabe comer e beber; e\u0301 ensinada a andar; sua visa\u0303o, sua audic\u0327a\u0303o, seu senso do ritmo, da forma e do movimento sa\u0303o exercitados, frequ\u0308entemente para a danc\u0327a e a mu\u0301sica. [&#8230;] Ela aprende as noc\u0327o\u0303es e os costumes de relaxamento, de respirac\u0327a\u0303o. Adota certas posturas, que geralmente lhe sa\u0303o impostas. (Mauss 2003:413)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>3. Te\u0301cnicas da adolesce\u0302ncia<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O grande momento da educac\u0327a\u0303o do corpo e\u0301, de fato, o da iniciac\u0327a\u0303o. Imaginamos, em virtude da maneira como nossos filhos e filhas sa\u0303o educados, que tanto uns quanto as outras adquirem as mesmas maneiras e posturas, recebendo o mesmo treinamento em toda parte. Essa ja\u0301 e\u0301 uma ide\u0301ia errada entre no\u0301s \u2014sendo completamente falsa em povos ditos primitivos. Ale\u0301m disso, descrevemos os fatos como se houvesse sempre e em toda parte algo do ge\u0302nero de nossa escola, que comec\u0327a a partir de um momento e deve cuidar da crianc\u0327a e educa\u0301-la para a vida. E\u0301 o contra\u0301rio que e\u0301 a regra. Contudo, tanto para os homens como para as mulheres, o momento decisivo e\u0301 o da adolesce\u0302ncia. E\u0301 nesse momento que eles aprendem definitivamente as te\u0301cnicas do corpo que conservara\u0303o durante toda a sua idade adulta. (Mauss 2003:413-4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>4. Te\u0301cnicas da idade adulta<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Para fazer um inventa\u0301rio destas, podemos seguir os diversos momentos da jornada em que se repartem movimentos coordenados e pausas. [&#8230;] Podemos distinguir o sono e a vigi\u0301lia, e, na vigi\u0301lia, o repouso e a atividade. (Mauss 2003:414)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Deixo de lado as te\u0301cnicas do corpo que funcionam como profisso\u0303es ou parte de profisso\u0303es ou de te\u0301cnicas mais complexas. (Mauss 2003:417)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em><strong>1) Te\u0301cnicas do sono<\/strong><\/em>: podemos distinguir as sociedades que nada te\u0302m para dormir, exceto &#8220;o cha\u0303o duro&#8221;, e as outras que se valem de um instrumento. [&#8230;] Ha\u0301 os povos com esteira e os povos sem esteira. [&#8230;] \u2014 Ha\u0301 os com travesseiros e os sem travesseiros. \u2014 Ha\u0301 as populac\u0327o\u0303es que se comprimem em roda para dormir, em volta de um fogo, ou mesmo sem fogo. Ha\u0301 maneiras [&#8230;] de se aquecer e de aquecer os pe\u0301s. [&#8230;] \u2014 Ha\u0301, enfim, o sono em pe\u0301. [&#8230;] Os velhos historiadores das invaso\u0303es nos representam hunos e mongo\u0301is dormindo a cavalo. Isso ainda e\u0301 verdade, e seus cavaleiros adormecidos na\u0303o dete\u0302m a marcha dos cavalos. [&#8230;] Ha\u0301 o uso do cobertor. Povos que dormem cobertos e os que dormem na\u0303o cobertos. Ha\u0301 a rede e a maneira de dormir suspenso. (Mauss 2003:414-5)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em><strong>2) Vigi\u0301lia: Te\u0301cnicas do repouso<\/strong><\/em>: O repouso pode ser repouso completo ou simples pausa: deitado, sentado, agachado etc. [&#8230;] A maneira de sentar-se e\u0301 fundamental. Podeis distinguir a humanidade de co\u0301coras e a humanidade sentada. E, nesta u\u0301ltima, os povos com bancos e os sem bancos e estrados, os povos com assentos e os sem assentos. [&#8230;] Ha\u0301 os povos que te\u0302m mesas e os que na\u0303o as te\u0302m. A mesa, a &#8220;<em>trapeza<\/em>&#8221; grega, esta\u0301 longe de ser universal. Em todo o Oriente, usa-se normalmente um tapete, uma esteira. Tudo isso e\u0301 bastante complicado, pois esses repousos comportam a refeic\u0327a\u0303o, a conversac\u0327a\u0303o etc. [&#8230;] Alguns conseguem ficar num pe\u0301 so\u0301 sem ajuda, outros se apoiam num basta\u0303o. Eis ai\u0301 verdadeiros trac\u0327os de civilizac\u0327o\u0303es formados por essas te\u0301cnicas de repouso, comuns a um grande nu\u0301mero, a fami\u0301lias inteiras de povos. [&#8230;] Ha\u0301 ainda o repouso ativo, geralmente este\u0301tico; assim, e\u0301 frequ\u0308ente mesmo a danc\u0327a no repouso etc.  (Mauss 2003:415)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em><strong>3) Te\u0301cnicas da atividade, do movimento<\/strong><\/em>: Movimentos do corpo inteiro: rastejar; pisar, andar. (Mauss 2003:416)<br \/>\n        \u25e6 <em>A marcha<\/em>: <em>habitus<\/em> do corpo em pe\u0301 ao andar, respirac\u0327a\u0303o, ritmo da marcha, balanceio dos punhos, dos cotovelos, progressa\u0303o do tronco adiante do corpo ou por avanc\u0327o alternado dos dois lados do corpo (estamos habituados a avanc\u0327ar com o corpo todo de uma so\u0301 vez). Pe\u0301s para fora, pe\u0301s para dentro. Extensa\u0303o da perna. (Mauss 2003:416)<br \/>\n        \u25e6 <em>Corrida<\/em>: Posic\u0327a\u0303o do pe\u0301, dos brac\u0327os, respirac\u0327a\u0303o, magia da corrida, resiste\u0302ncia. (Mauss 2003:416)<br \/>\n        \u25e6 <em>Danc\u0327a<\/em> (introvertidaXextrovertida; movimento no mesmo lugar; distin\u00e7\u00e3o por sexo; dan\u00e7a enla\u00e7ada europeia) (Mauss 2003:417)<br \/>\n        \u25e6 <em>Salto<\/em> (de frente ou de lado, do ch\u00e3o ou de um trampolim) (Mauss 2003:417)<br \/>\n        \u25e6 <em>Escalar<\/em> (\u00e1rvores ou montanhas, com ou sem equipamento) (Mauss 2003:417)<br \/>\n        \u25e6 <em>Descida<\/em> (como descer declives com chinelos e saltos-altos)<br \/>\n        \u25e6 <em>Nado<\/em>: Mergulhar, nadar; utilizac\u0327o\u0303es de meios suplementares: bo\u0301ias, pranchas etc. Estamos no caminho da invenc\u0327a\u0303o da navegac\u0327a\u0303o. (Mauss 2003:418)<br \/>\n        \u25e6 <em>Movimentos de forc\u0327a<\/em>: Empurrar, puxar, levantar. Todos sabem o que e\u0301 um esforc\u0327o muscular da regia\u0303o lombar. E\u0301 uma te\u0301cnica aprendida e na\u0303o uma simples se\u0301rie de movimentos. [&#8230;] Lanc\u0327ar, arremessar no ar, em superfi\u0301cie etc.; a maneira de segurar nos dedos o objeto a lanc\u0327ar e\u0301 importante e comporta grandes variac\u0327o\u0303es. Segurar. Segurar com os dentes. Uso dos dedos do pe\u0301, da axila etc. [&#8230;] Aqui situam-se todas as habilidades manuais, as prestidigitac\u0327o\u0303es, a acrobacia, o atletismo etc. (Mauss 2003:418)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em><strong>4) Te\u0301cnicas dos cuidados do corpo<\/strong><\/em>.<br \/>\n        \u25e6 <em>Esfregar, lavar, ensaboar<\/em>: Os inventores do saba\u0303o na\u0303o foram os antigos, eles na\u0303o se ensaboavam. Foram os gauleses. E, por outro lado, independentemente, toda a Ame\u0301rica central e a do sul (nordeste) se ensaboavam com a madeira-do-panama\u0301 e com o pau-brasil, donde o nome desse impe\u0301rio. (Mauss 2003:418)<br \/>\n        \u25e6 <em>Cuidados da boca<\/em>: Te\u0301cnicas do tossir e do cuspir. (Mauss 2003:418)<br \/>\n        \u25e6 <em>Higiene das necessidades naturais<\/em>: fatos sem conta (Mauss 2003:419)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em><strong>5) Te\u0301cnicas do consumo<\/strong><\/em>.<br \/>\n        \u25e6 <em>Comer<\/em> (com a m\u00e3o ou com talheres?)<br \/>\n        \u25e6 <em>Bebida<\/em>: E\u0301 muito u\u0301til ensinar as crianc\u0327as a beber diretamente na fonte, na a\u0301gua que jorra ou em veios d&#8217;a\u0301gua etc., a beber com gosto. (Mauss 2003:419)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em><strong>6) Te\u0301cnicas da reproduc\u0327a\u0303o<\/strong><\/em> (<em>Anthropophyteia<\/em>): Nada mais te\u0301cnico do que as posic\u0327o\u0303es sexuais. Muito poucos autores te\u0302m a coragem de falar dessa questa\u0303o. [&#8230;] Ha\u0301 todas as te\u0301cnicas dos atos sexuais normais e anormais. Toques por sexo, mistura das respirac\u0327o\u0303es, beijos etc. Aqui as te\u0301cnicas e a moral sexuais esta\u0303o em estreitas relac\u0327o\u0303es. (Mauss 2003:419)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em><strong>7) Ha\u0301, por fim, as te\u0301cnicas de medicac\u0327a\u0303o, do anormal<\/strong><\/em>: massagens etc. Mas deixemos de lado. (Mauss 2003:419)<\/p><\/blockquote>\n<h4>IV. Considerac\u0327o\u0303es gerais<\/strong><\/h4>\n<p><strong>FATO SOCIAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[E]m toda parte nos encontramos diante de montagens fisio-psico-sociolo\u0301gicas de se\u0301ries de atos. Esses atos sa\u0303o mais ou menos habituais e mais ou menos antigos na vida do indivi\u0301duo e na histo\u0301ria da sociedade. [&#8230;] Vamos mais longe: uma das razo\u0303es pelas quais essas se\u0301ries podem ser montadas mais facilmente no indivi\u0301duo e\u0301 que elas sa\u0303o montadas pela autoridade social e para ela. [&#8230;] Em toda sociedade, todos sabem e devem saber e aprender o que devem fazer em todas as condic\u0327o\u0303es. Naturalmente, a vida social na\u0303o e\u0301 isenta de estupidez e de anormalidades. [&#8230;] Mas o princi\u0301pio e\u0301 este: exemplo e ordem. Ha\u0301 portanto uma forte causa sociolo\u0301gica em todos esses fatos. (Mauss 2003:420)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ENGRENAGENS (Comte)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Qual a espessura da roda de engrenagem psicolo\u0301gica? Digo propositalmente roda de engrenagem. Um seguidor de Comte diria que na\u0303o ha\u0301 intervalo entre o social e o biolo\u0301gico. O que posso vos dizer e\u0301 que vejo aqui os fatos psicolo\u0301gicos como engrenagens e que na\u0303o os vejo como causas, exceto nos momentos de criac\u0327a\u0303o ou de reforma. Os casos de invenc\u0327a\u0303o, de posic\u0327a\u0303o de princi\u0301pios, sa\u0303o raros. (Mauss 2003:420)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>T\u00c9CNICA COMO ADAPTA\u00c7\u00c3O DO CORPO A SEU USO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Creio que a educac\u0327a\u0303o fundamental das te\u0301cnicas que vimos consiste em fazer adaptar o corpo a seu uso. Por exemplo, as grandes provas de estoicismo etc., que constituem a iniciac\u0327a\u0303o na maior parte da humanidade, te\u0302m por finalidade ensinar o sangue-frio, a resiste\u0302ncia, a seriedade, a presenc\u0327a de espi\u0301rito, a dignidade etc. (Mauss 2003:421)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ENGENHARIA SOCIAL (autocr\u00edtica moderna?)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Creio que essa noc\u0327a\u0303o de educac\u0327a\u0303o das rac\u0327as que se selecionam em vista de um rendimento determinado e\u0301 um dos momentos fundamentais da pro\u0301pria histo\u0301ria: educac\u0327a\u0303o da visa\u0303o, educac\u0327a\u0303o da marcha &#8211; subir, descer, correr. E\u0301, em particular, na educac\u0327a\u0303o do sangue-frio que ela consiste. E este e\u0301, antes de tudo, um mecanismo de retardamento, de inibic\u0327a\u0303o de movimentos desordenados; esse retardamento permite, a seguir, uma resposta coordenada de movimentos coordenados, que partem enta\u0303o na direc\u0327a\u0303o do alvo escolhido. Essa resiste\u0302ncia a\u0300 perturbac\u0327a\u0303o invasora e\u0301 fundamental na vida social e mental. Ela separa entre si, ela classifica mesmo as sociedades ditas primitivas: conforme as reac\u0327o\u0303es sa\u0303o mais ou menos brutais, irrefletidas, inconscientes, ou, ao contra\u0301rio, isoladas, precisas, comandadas por uma conscie\u0302ncia clara. [&#8230;] E\u0301 grac\u0327as a\u0300 sociedade que ha\u0301 uma intervenc\u0327a\u0303o da conscie\u0302ncia. Na\u0303o e\u0301 grac\u0327as a\u0300 inconscie\u0302ncia que ha\u0301 uma intervenc\u0327a\u0303o da sociedade. E\u0301 grac\u0327as a\u0300 sociedade que ha\u0301 seguranc\u0327a e presteza nos movimentos, domi\u0301nio do consciente sobre a emoc\u0327a\u0303o e o inconsciente. E\u0301 grac\u0327as a\u0300 raza\u0303o que a marinha francesa obrigara\u0301 seus marujos a aprender a nadar. (Mauss 2003:421)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>T\u00c9CNICAS DE COMUNICA\u00c7\u00c3O COM DEUS (\u201cte\u0301cnicas do taoi\u0301smo, te\u0301cnicas do corpo, da respirac\u0327a\u0303o, em particular\u201d)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>No meu entender, no fundo de todos os nossos estados mi\u0301sticos ha\u0301 te\u0301cnicas do corpo que na\u0303o foram estudadas, e que foram perfeitamente estudadas pela China e pela \u00cdndia desde e\u0301pocas muito remotas. Esse estudo so\u0301cio-psico-biolo\u0301gico da mi\u0301stica deve ser feito. Penso que ha\u0301 necessariamente meios biolo\u0301gicos de entrar em &#8220;comunicac\u0327a\u0303o com o Deus&#8221;. E, embora a te\u0301cnica da respirac\u0327a\u0303o etc., seja o ponto de vista fundamental apenas na \u00cdndia e na China, creio, enfim, que ela e\u0301 bem mais difundida de um modo geral. (Mauss 2003:422)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAUSS, Marcel. 2003. As t\u00e9cnicas do corpo. In: Sociologia e Antropologia. S\u00e3o Paulo: Cosac &#038; Naify, pp.399-422. [1934] [Comunicac\u0327a\u0303o apresentada \u00e0 Sociedade de Psicologia em 17 de maio de 1934. ] SUM\u00c1RIO I. Noc\u0327a\u0303o de te\u0301cnica do corpo II. Princi\u0301pios de classificac\u0327a\u0303o das te\u0301cnicas do corpo III. Enumerac\u0327a\u0303o biogra\u0301fica das te\u0301cnicas do corpo IV. Considerac\u0327o\u0303es gerais I. 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