{"id":1049,"date":"2021-12-08T14:27:58","date_gmt":"2021-12-08T14:27:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=1049"},"modified":"2021-12-08T14:51:18","modified_gmt":"2021-12-08T14:51:18","slug":"humanos-e-nao-humanos-em-latour-1994-1991","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/12\/08\/humanos-e-nao-humanos-em-latour-1994-1991\/","title":{"rendered":"Humanos e n\u00e3o-humanos em Latour (1994 [1991])"},"content":{"rendered":"<p>LATOUR, Bruno. 1994. <em>Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia sim\u00e9trica<\/em>. (trad. Carlos Irineu da Costa) Rio de Janeiro: Ed.34. [1991]<\/p>\n<p><strong>O PROBLEMA DO HUMANISMO MODERNO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A modernidade \u00e9 muitas vezes definida atrav\u00e9s do humanismo, seja para saudar o nascimento do homem, seja para anunciar sua morte. Mas o pr\u00f3prio h\u00e1bito \u00e9 moderno, uma vez que este continua sendo assim\u00e9trico. Esquece o nascimento conjunto da &#8220;n\u00e3o-humanidade&#8221; das coisas, dos objetos ou das bestas, e o nascimento, t\u00e3o estranho quanto o primeiro, de um Deus suprimido, fora do jogo. A modernidade decorre da cria\u00e7\u00e3o conjunta dos tr\u00eas, e depois da recupera\u00e7\u00e3o deste nascimento conjunto e do tratamento separado das tr\u00eas comunidades enquanto que, embaixo, os h\u00edbridos continuavam a multiplicar-se como uma consequ\u00eancia direta deste tratamento em separado. \u00c9 esta dupla separa\u00e7\u00e3o que precisamos reconstituir, entre o que est\u00e1 acima e o que est\u00e1 abaixo, de um lado, entre os humanos e os <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong>, de outro. (Latour 1994:19)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A NOVIDADE DOS TESTEMUNHOS N\u00c3O-HUMANOS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>At\u00e9 ent\u00e3o [at\u00e9 Boyle], os testemunhos haviam sempre sido humanos ou divinos \u2013 nunca <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong>. Os textos haviam sido escritos por homens ou inspirados por Deus \u2013 jamais inspirados ou escritos por <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong>. As cortes de justi\u00e7a viram passar in\u00fameros processos humanos e divinos \u2013 nunca causas que colocassem em jogo os comportamentos de <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong> em um laborat\u00f3rio transformado em tribunal de justi\u00e7a. [&#8230;] Eis que interv\u00e9m, na escrita de Boyle, um novo ator reconhecido pela nova Constitui\u00e7\u00e3o: corpos inertes, incapazes de vontade e de preconceito, [mas] capazes de mostrar, de assinar, de escrever e de rabiscar sobre os instrumentos de laborat\u00f3rio testemunhos dignos de f\u00e9. Estes <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong>, privados de alma, mas aos quais \u00e9 atribu\u00eddo um sentido, chegam a ser mais confi\u00e1veis que o comum dos mortais, aos quais \u00e9 atribuida uma vontade, mas que n\u00e3o possuem a capacidade de indicar, de forma confi\u00e1vel, os fen\u00f4menos. De acordo com a constitui\u00e7\u00e3o, em caso de d\u00favida, mais vale apelar aos <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong> para refutar os humanos. Dotados de seus novos poderes semi\u00f3ticos, aqueles ir\u00e3o contribuir para uma nova forma de texto, o artigo de ci\u00eancia experimental, h\u00edbrido entre o estilo milenar da exegese b\u00edblica \u2013 at\u00e9 ent\u00e3o aplicado exclusivamente \u00e0s Escrituras e aos cl\u00e1ssicos \u2013 e o novo instrumento que produz novas inscri\u00e7\u00f5es. A partir de ent\u00e3o, ser\u00e1 em torno da bomba de ar em seu espa\u00e7o fechado, e a respeito do comportamento dotado de sentido dos <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong>, que as testemunhas ir\u00e3o continuar seus debates. (Latour 1994:29)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TEMPO e HIST\u00d3RIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Se houv\u00e9ssemos sido capazes de recalcar atr\u00e1s de n\u00f3s, por mais tempo, as multid\u00f5es humanas e o ambiente <strong>n\u00e3o humano<\/strong>, provavelmente poder\u00edamos continuar acreditando que os tempos modernos realmente passavam, eliminando tudo em sua passagem. Mas o que foi recalcado est\u00e1 de volta. As massas humanas est\u00e3o novamente presentes, as do Leste como a do Sul e a infinita variedade das massas <strong>n\u00e3o humanas<\/strong>, as de Toda Parte. Elas n\u00e3o podem mais ser exploradas. Elas n\u00e3o podem mais ser superadas porque nada mais as ultrapassa. N\u00e3o h\u00e1 nada maior do que a natureza ambiente; os povos do Leste n\u00e3o est\u00e3o mais reduzidos a suas vanguardas prolet\u00e1rias; quanto \u00e0s massas do Terceiro Mundo, nada ir\u00e1 circunscrev\u00ea-las. Como se livrar delas, perguntam-se os modernos, angustiados. Como modernizar todas elas? Era poss\u00edvel, acredit\u00e1va-se que fosse poss\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel acreditar. Como um grande navio freado e depois atolado no mar de Sarga\u00e7os, o tempo dos modernos finalmente parou. Mas o tempo nada tem a ver com a hist\u00f3ria. \u00c9 a liga\u00e7\u00e3o entre as seres que constitui o tempo. \u00c9 a liga\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos contempor\u00e2neos em um todo coerente que constitu\u00eda o fluxo do tempo moderno. Agora que este fluxo laminar tornou-se turbulento, podemos abandonar as an\u00e1lises sobre o quadro vazio da temporalidade e retornar ao tempo que passa, quer dizer, aos seres e a suas rela\u00e7\u00f5es, as redes construtoras de irreversibilidade e reversibilidade. (Latour 1994:75-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>GENERALIZA\u00c7\u00c3O DO PRINC\u00cdPIO EXISTENCIALISTA (Sartre)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O que Sartre dizia dos humanos, que sua exist\u00eancia precede sua ess\u00eancia, \u00e9 v\u00e1lido para todos os actantes, a elasticidade do ar, a sociedade, a mat\u00e9ria e a consci\u00eancia. (Latour 1994:85)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A CI\u00caNCIA E O EXCEPCIONALISMO OCIDENTAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&#8220;N\u00f3s, ocidentais, somos completamente diferentes dos outros&#8221;, este \u00e9 o grito de vit\u00f3ria ou a longa queixa dos modernos. A Grande Divis\u00e3o entre N\u00f3s, os ocidentais, e Eles, todos os outros, dos mares da China at\u00e9 o Yucat\u00e1n, dos inuit aos abor\u00edgenes da Tansm\u00e2nia sempre nos perseguiu. [&#8230;] Porque o Ocidente se pensa assim? Porque justamente ele, e apenas ele, seria algo mais que uma cultura? Para compreender a profundidade desta Grande Divis\u00e3o entre Eles e N\u00f3s, \u00e9 preciso retornar a esta outra Grande Divis\u00e3o entre os humanos e os <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong> [&#8230;]. De fato, <em>[a] primeir[a] \u00e9 a exporta\u00e7\u00e3o d[a] segund[a]<\/em>. N\u00f3s, ocidentais, n\u00e3o podemos ser apenas mais uma cultura entre outras porque mobilizamos tamb\u00e9m a natureza. N\u00e3o mais, como fazem as outras sociedades, uma imagem ou representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da natureza, mas a natureza como ela \u00e9, ou ao menos tal como as ci\u00eancias a conhecem, ci\u00eancias que permanecem na retaguarda, imposs\u00edveis de serem estudadas, jamais estudadas. No centro da quest\u00e3o do relativismo encontra-se, portanto, a quest\u00e3o da ci\u00eancia. (Latour 1994:96-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AS 2 GRANDES DIVIS\u00d5ES FALAM SOBRETUDO SOBRE COMO OS MODERNOS SE AUTO-ENGANAM<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A antropologia [sim\u00e9trica] contorna a quest\u00e3o e transforma as duas Grandes Divis\u00f5es [entre humanos e n\u00e3o-humanos, e entre N\u00f3s e Eles] n\u00e3o mais em algo que descreve a realidade \u2013 tanto a nossa quanto a dos outros \u2013, mas em algo que define a forma particular que os ocidentais t\u00eam de estabelecer suas rela\u00e7\u00f5es com os outros. (Latour 1994:101)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A peculiaridade dos ocidentais foi a de ter imposto, atrav\u00e9s da Constitui\u00e7\u00e3o, a separa\u00e7\u00e3o total dos humanos e dos <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong> \u2013 Grande Divis\u00e3o interior \u2013 tendo assim criado artificialmente o choque dos outros. [&#8230;] <em>Mas a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de cultura \u00e9 um artefato criado por nosso afastamento da natureza<\/em>. Ora, n\u00e3o existem nem culturas \u2013 diferentes ou universais \u2013 nem uma natureza universal. Existem apenas naturezas-culturas, as quais constituem a \u00fanica base poss\u00edvel para compara\u00e7\u00f5es. A partir do momento em que levamos em conta tanto as pr\u00e1ticas de media\u00e7\u00e3o quanto as pr\u00e1ticas de purifica\u00e7\u00e3o, percebemos que nem bem os modernos separam os humanos dos <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong> nem bem os &#8220;outros&#8221; superp\u00f5em totalmente os signos e as coisas (Latour 1994:102)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SOLU\u00c7\u00c3O SIMETRIZANTE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A solu\u00e7\u00e3o surge no mesmo momento em que o artefato das culturas se dissolve. Todas as naturezas-culturas s\u00e3o similares por constru\u00edrem ao mesmo tempo os seres humanos, divinos e <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong>. Nenhuma delas vive em um mundo de signos ou de s\u00edmbolos arbitrariamente impostos a uma natureza exterior que apenas n\u00f3s conhecemos. Nenhuma delas, e sobretudo n\u00e3o a nossa, vive em um mundo de coisas. Todas distribuem aquilo que receber\u00e1 uma carga de s\u00edmbolos e aquilo que n\u00e3o receber\u00e1 [&#8230;]. Se existe uma coisa que todos fazemos da mesma forma \u00e9 construir ao mesmo tempo nossos coletivos humanos e os <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong> que os cercam. (Latour 1994:104)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MODERNIDADE E ESCALA (as volutas da espiral)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Todos os coletivos se parecem, a n\u00e3o ser por sua dimens\u00e3o, assim como as volutas sucessivas de uma espiral. Que sejam necess\u00e1rios ancestrais e estrelas fixas em um dos c\u00edrculos, ou genes e quasares em outro, mais exc\u00eantrico, isto pode ser explicado pela dimens\u00e3o dos coletivos em quest\u00e3o. <em>Um n\u00famero muito maior de objetos exige muito mais sujeitos. Muito mais subjetividade requer muito mais objetividade<\/em>. [&#8230;] \u00c9 isto que permite respeitar ao mesmo tempo as diferen\u00e7as (as volutas t\u00eam, de fato, dimens\u00f5es diferentes) e as semelhan\u00e7as (todos os coletivos misturam da mesma forma as entidades humanas e <strong>n\u00e3o-humanas<\/strong>). [&#8230;] As ci\u00eancias e as t\u00e9cnicas n\u00e3o s\u00e3o not\u00e1veis por serem verdadeiras ou eficazes [&#8230;], mas sim porque multiplicam os <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong> envolvidos na constru\u00e7\u00e3o dos coletivos e porque tornam mais \u00edntima a comunidade que formamos com estes seres. \u00c9 a extens\u00e3o da espiral, a amplitude dos envolvimentos que ir\u00e1 suscitar, a dist\u00e2ncia cada vez maior onde ir\u00e1 recrutar estes seres que caracterizam as ci\u00eancias modernas e n\u00e3o algum corte epistemol\u00f3gico que romperia de uma vez por todas com seu passado pr\u00e9-cient\u00edfico. Os saberes e os poderes modernos n\u00e3o s\u00e3o diferentes porque escapam \u00e0 tirania do social, mas porque acrescentam muito mais h\u00edbridos a fim de recompor o la\u00e7o social e de aumentar ainda mais sua escala. N\u00e3o apenas a &#8220;bomba de v\u00e1cuo, mas tamb\u00e9m os micr\u00f3bios, a eletricidade, os \u00e1tomos, as estrelas, as equa\u00e7\u00f5es de segundo grau, os aut\u00f4matos e os rob\u00f4s, os moinhos e os pist\u00f5es, o inconsciente e os neurotransmissores. (Latour 1994:106-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A IMPENSABILIDADE DOS N\u00c3O-HUMANOS COMO M\u00c1QUINA DE CRIAR DIFEREN\u00c7AS (o trickster, objeto construtor do social)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os modernos de fato diferem dos pr\u00e9-modernos porque se recusam a pensar os quase-objetos como tais. Os h\u00edbridos representam para eles o horror que deve ser evitado a qualquer custo atrav\u00e9s de uma purifica\u00e7\u00e3o incessante e man\u00edaca. Por si mesma, esta diferen\u00e7a na representa\u00e7\u00e3o constitucional importaria muito pouco, uma vez que n\u00e3o seria suficiente para separar os modernos dos outros. Haveria tantos coletivos quantas fossem as representa\u00e7\u00f5es. Mas a m\u00e1quina de criar diferen\u00e7as \u00e9 ativada por esta recusa de pensar os quase-objetos, porque ela gera a prolifera\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de um certo tipo de ser: <em>o objeto construtor do social, uma vez expulso do mundo social, atribu\u00eddo a um mundo transcendente que no entanto n\u00e3o \u00e9 divino, e que produz, por contraste, um sujeito flutuante portador de direito e de moralidade<\/em>. A bomba de v\u00e1cuo de Boyle, os micr\u00f3bios de Pasteur, a polia composta de Arquimedes s\u00e3o objetos deste tipo. Estes novos <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong> possuem propriedades miraculosas, uma vez que s\u00e3o ao mesmo tempo sociais e n\u00e3o-sociais, produtores de naturezas e construtores de sujeitos. S\u00e3o os <em>tricksters<\/em> da antropologia comparada. Atrav\u00e9s desta brecha, as ci\u00eancias e as t\u00e9cnicas ir\u00e3o irromper de forma t\u00e3o misteriosa na sociedade que este milagre vai for\u00e7ar os ocidentais a se pensarem como sendo totalmente diferentes dos outros. O primeiro milagre gera um segundo \u2013 por que os outros n\u00e3o fazem o mesmo? \u2013 e depois um terceiro \u2013 por que n\u00f3s somos t\u00e3o excepcionais? \u00c9 esta caracter\u00edstica que ir\u00e1 engendrar, em cascata, todas as pequenas diferen\u00e7as, as quais ser\u00e3o recolhidas, resumidas e amplificadas pela grande narrativa do Ocidental radicalmente \u00e0 parte de todas as culturas. (Latour 1994:110)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>(NOVAS) IGUALDADE, LIBERDADE E FRATERNIDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O mundo moderno, para seu pr\u00f3prio bem, n\u00e3o pode mais estender-se sem voltar a ser aquilo que na pr\u00e1tica jamais deixou de ser, ou seja, como todos os outros, um mundo n\u00e3o moderno. Esta fraternidade \u00e9 essencial para absorver os dois conjuntos que a moderniza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria deixava atr\u00e1s de si: as multid\u00f5es naturais que n\u00e3o dominamos mais, as multid\u00f5es humanas que ningu\u00e9m mais domina. A temporalidade moderna dava a impress\u00e3o de uma acelera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, relegando ao vazio do passado massas cada vez maiores de uma mistura de humanos e <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong>. A irreversibilidade mudou de campo. Se h\u00e1 uma coisa da qual n\u00e3o podemos mais nos livrar \u00e9 das naturezas e das massas, ambas igualmente globais. A tarefa pol\u00edtica recome\u00e7a da estaca zero. Foi preciso mudar completamente a fabrica\u00e7\u00e3o de nossos coletivos para absorver o cidad\u00e3o do s\u00e9culo XVIII e o oper\u00e1rio do XIX. Ser\u00e1 preciso uma transforma\u00e7\u00e3o equivalente para abrir espa\u00e7o para os <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong> criados pelas ci\u00eancias e t\u00e9cnicas. (Latour 1994:134)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O N\u00c3O-HUMANO \u00c9 PARTE DO HUMANO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O humano, como podemos compreender agora, s\u00f3 pode ser captado e preservado se devolvermos a ele esta outra metade de si mesmo, a parte das coisas. Enquanto o humanismo for feito por contraste com o objeto abandonado \u00e0 epistemologia, n\u00e3o compreenderemos nem o humano, nem o <strong>n\u00e3o-humano<\/strong>. (Latour 1994:134)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O HUMANO \u00c9 O MEDIADOR ENTRE HUMANOS E N\u00c3O-HUMANOS (o antropos como morfismo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Se por um lado o humano n\u00e3o possui uma forma est\u00e1vel, isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o tenha nenhuma forma. Se, ao inv\u00e9s de a ligarmos a um dos p\u00f3los da Constitui\u00e7\u00e3o, n\u00f3s o aproximarmos do meio, ele mesmo se torna o mediador e o permutador. O humano n\u00e3o \u00e9 um dos p\u00f3los da Constitui\u00e7\u00e3o que se oporia aos <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong>. As duas express\u00f5es de humanos ou de <strong>n\u00e3o-humanos<\/strong> s\u00e3o resultados tardios que n\u00e3o bastam mais para designar a outra dimens\u00e3o. A escala de valores n\u00e3o consiste em fazer deslizar a defini\u00e7\u00e3o do humano ao longo da linha horizontal que conecta o p\u00f3lo do objeto ao do sujeito, mas sim em faz\u00ea-la deslizar ao longo da dimens\u00e3o vertical que define o mundo n\u00e3o moderno. [&#8230;] A express\u00e3o &#8220;antropom\u00f3rfico&#8221; subestima nossa humanidade, em muito. Dever\u00edamos falar em morfismo. Nele se entrecruzam os tecnomorfismos, os zoomorfismos, os fisimorfismos, os ideomorfismos, os teomorfismos, os sociomorfismos, os psicomorfismos. S\u00e3o suas alian\u00e7as e suas trocas, como um todo, que definem o <em>antropos<\/em>. Uma boa defini\u00e7\u00e3o para ele seria a de permutador ou recombinador de morfismos. Quanto mais pr\u00f3ximo desta reparti\u00e7\u00e3o, mais humano ele ser\u00e1. (Latour 1994:135)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O humano est\u00e1 no pr\u00f3prio ato de delega\u00e7\u00e3o, no passe, no arremesso, na troca cont\u00ednua das formas. (Latour 1994:136)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LATOUR, Bruno. 1994. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia sim\u00e9trica. (trad. Carlos Irineu da Costa) Rio de Janeiro: Ed.34. [1991] O PROBLEMA DO HUMANISMO MODERNO A modernidade \u00e9 muitas vezes definida atrav\u00e9s do humanismo, seja para saudar o nascimento do homem, seja para anunciar sua morte. Mas o pr\u00f3prio h\u00e1bito \u00e9 moderno, uma vez que este continua sendo assim\u00e9trico. 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