{"id":1723,"date":"2023-09-19T18:23:05","date_gmt":"2023-09-19T18:23:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?page_id=1723"},"modified":"2023-09-19T18:23:05","modified_gmt":"2023-09-19T18:23:05","slug":"prata-e-ouro-em-levi-strauss-2008-1958","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/projetos\/a-agencia-social-dos-elementos-quimicos\/levantamentos-da-presenca-de-elementos-quimicos-em-livros\/prata-e-ouro-em-levi-strauss-2008-1958\/","title":{"rendered":"Prata e ouro em L\u00e9vi-Strauss (2008 [1958])"},"content":{"rendered":"<p>Quando se passa da linguagem para os outros fatos sociais, \u00e9 surpreendente que Haudricourt se deixe seduzir por uma concep\u00e7\u00e3o empirista e naturalista das rela\u00e7\u00f5es entre meio ambiente e sociedade, quando ele mesmo tanto fez para mostrar o car\u00e1ter artificial da rela\u00e7\u00e3o que os une. Acabo de mostrar que a linguagem n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o arbitr\u00e1ria; mas a rela\u00e7\u00e3o entre natureza e sociedade o \u00e9 bem mais do que o artigo em quest\u00e3o quer nos fazer crer. Ser\u00e1 preciso lembrar que todo o pensamento m\u00edtico, o ritual inteiro, consistem numa reorganiza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia sens\u00edvel no interior de um sistema sem\u00e2ntico? Que as raz\u00f5es pelas quais diversas sociedades escolhem utilizar ou rejeitar [144] determinados produtos naturais e, quando os selecionam, as modalidades do uso que deles fazem, dependem n\u00e3o s\u00f3 de suas propriedades intr\u00ednsecas, mas tamb\u00e9m do valor simb\u00f3lico que lhes \u00e9 atribu\u00eddo? Evitarei retomar aqui exemplos que est\u00e3o em qualquer manual, e invocarei uma \u00fanica autoridade, n\u00e3o suspeita de idealismo, a de Marx. Na <em>Cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>, ele investiga as raz\u00f5es que teriam levado os homens a escolher os metais preciosos como padr\u00e3o de valor. Enumera v\u00e1rias delas, ligadas \u00e0s \u201cpropriedades naturais\u201d do <strong>ouro<\/strong> e da <strong>prata<\/strong>, como homogeneidade, uniformidade relativa, divisibilidade em quaisquer fra\u00e7\u00f5es que sempre podem ser reunificadas pela fundi\u00e7\u00e3o, peso espec\u00edfico elevado, raridade, mobilidade, inalterabilidade, e prossegue: \u201cPor outro lado, o <strong>ouro<\/strong> e a <strong>prata<\/strong> n\u00e3o s\u00e3o apenas produtos negativamente superabundantes e sup\u00e9rfluos; suas propriedades est\u00e9ticas fazem deles a mat\u00e9ria natural do luxo, do ornamento, das necessidades de se enfeitar, em suma, a forma positiva do sup\u00e9rfluo e da riqueza. Eles s\u00e3o, em certa medida, a luz solidificada que se extraiu do mundo subterr\u00e2neo; a <strong>prata<\/strong>, de fato, reflete todos os raios luminosos em sua mistura original, e o <strong>ouro<\/strong>, a cor mais potente, o vermelho. Mas o sentido das cores \u00e9 a forma mais popular do senso est\u00e9tico em geral. Jacob Grimm mostrou as rela\u00e7\u00f5es etimol\u00f3gicas, em diferentes l\u00ednguas indo-germ\u00e2nicas, que ligavam os nomes dos metais preciosos \u00e0s cores\u201d (Marx 1899: 216). Assim, \u00e9 o pr\u00f3prio Marx que nos convida a extrair sistemas simb\u00f3licos, subjacentes tanto \u00e0 linguagem como \u00e0s rela\u00e7\u00f5es que o [145] homem tem com o mundo. \u201cSomente o h\u00e1bito da vida cotidiana nos faz crer que \u00e9 banal e simples que uma rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o tome a forma de um objeto\u201d (Id. ibid.: 14) (L\u00e9vi-Strauss 2012 [1958]:143-5)<\/p>\n<p>E, de fato, o xam\u00e3 n\u00e3o recupera apenas o <em>nigapurbalele<\/em>, cuja descoberta \u00e9 imediatamente seguida pela descoberta, situada no mesmo plano, de outros <em>purba<\/em>, do cora\u00e7\u00e3o, dos ossos, dos dentes, do cabelo, das unhas e dos p\u00e9s (pp. 401-08 e 435-42). Pode surpreender que n\u00e3o se veja, nessa lista, o purba que rege os \u00f3rg\u00e3os mais afetados, os reprodutivos. Como observam os editores de nosso texto, \u00e9 porque o <em>purba<\/em> do \u00fatero n\u00e3o \u00e9 considerado como v\u00edtima, mas como respons\u00e1vel pelo dist\u00farbio patol\u00f3gico. Muu e suas filhas, as muugan, s\u00e3o \u2013 como j\u00e1 indicara Nordenski\u00f6ld (1938: 364 ss) \u2013 as for\u00e7as que presidem ao desenvolvimento do feto e lhe conferem seus <em>kurngin<\/em>, ou capacidades. O texto n\u00e3o faz, por\u00e9m, nenhuma men\u00e7\u00e3o a esses atributos positivos. Muu aparece a\u00ed como um promotor [270] de desordem, uma \u201calma\u201d espec\u00edfica que capturou e paralisou as demais \u201calmas\u201d espec\u00edficas, destruindo assim a coopera\u00e7\u00e3o que garantia a integridade do \u201ccorpo principal\u201d (<em>cuerpo jefe<\/em> em espanhol, pp. 430, 435) e da qual ele tirava seu <em>niga<\/em>. Mas, ao mesmo tempo, Muu deve ficar onde est\u00e1, pois a expedi\u00e7\u00e3o que ir\u00e1 liberar os <em>purba<\/em> pode provocar a evas\u00e3o de Muu pelo caminho que permanece temporariamente aberto. O que explica as detalhadas precau\u00e7\u00f5es que ocupam a \u00faltima parte do canto. O xam\u00e3 mobiliza os donos dos animais ferozes para guardar o caminho, as pistas s\u00e3o embaralhadas, estendem-se fios de <strong>ouro<\/strong> e <strong>prata<\/strong> e, durante quatro dias, os <em>nelegan<\/em> vigiam e brandem seus bast\u00f5es (pp. 505-35). Muu n\u00e3o \u00e9, portanto, uma for\u00e7a fundamentalmente m\u00e1, \u00e9 uma for\u00e7a desviada. A explica\u00e7\u00e3o do parto dif\u00edcil \u00e9 um desvio, operado pela \u201calma\u201d do \u00fatero, de todas as demais \u201calmas\u201d das diferentes partes do corpo. Assim que estas estiverem liberadas, ela pode e deve retomar a colabora\u00e7\u00e3o. Sublinhe-se desde j\u00e1 a precis\u00e3o com que a ideologia ind\u00edgena acompanha o conte\u00fado afetivo do dist\u00farbio fisiol\u00f3gico, tal como se pode apresentar, n\u00e3o formulada, \u00e0 consci\u00eancia da paciente. (L\u00e9vi-Strauss 2012 [1958]:269-70)<\/p>\n<p>L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. 2012 [1958]. <em>Antropologia estrutural<\/em>. (Trad.: Beatriz Perrone-Mois\u00e9s). S\u00e3o Paulo: Cosac Naify.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando se passa da linguagem para os outros fatos sociais, \u00e9 surpreendente que Haudricourt se deixe seduzir por uma concep\u00e7\u00e3o empirista e naturalista das rela\u00e7\u00f5es entre meio ambiente e sociedade, quando ele mesmo tanto fez para mostrar o car\u00e1ter artificial da rela\u00e7\u00e3o que os une. 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