{"id":1460,"date":"2023-03-31T01:47:11","date_gmt":"2023-03-31T01:47:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?page_id=1460"},"modified":"2023-03-31T01:47:11","modified_gmt":"2023-03-31T01:47:11","slug":"prata-em-deleuze-e-guattari-1997-1980","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/projetos\/a-agencia-social-dos-elementos-quimicos\/levantamentos-da-presenca-de-elementos-quimicos-em-livros\/prata-em-deleuze-e-guattari-1997-1980\/","title":{"rendered":"Prata em Deleuze e Guattari (1997 [1980])"},"content":{"rendered":"<p>O devir-mulher, o devir-crian\u00e7a da m\u00fasica aparecem no problema de uma maquina\u00e7\u00e3o da voz. Maquinar a voz \u00e9 a primeira opera\u00e7\u00e3o musical. Sabe-se como o problema foi resolvido na m\u00fasica ocidental, na Inglaterra e na It\u00e1lia, de duas maneiras diferentes: de um lado, a voz de cabe\u00e7a da contralto, que canta \u201cpara al\u00e9m de sua voz\u201d, ou cuja voz trabalha na cavidade dos selos paranasais, a parte anterior da garganta e o palato, sem apoiar-se no diafragma nem transpor os br\u00f4nquios; por outro lado, a voz de ventre dos <em>castrati<\/em>, \u201cmais forte, mais volumosa, mais l\u00e2nguida\u201d, como se eles tivessem dado uma mat\u00e9ria carnal ao impercept\u00edvel, ao impalp\u00e1vel e ao a\u00e9reo. Dominique Fernandez escreveu sobre isso um belo livro, onde, precavendose felizmente de qualquer considera\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica sobre uma liga\u00e7\u00e3o da m\u00fasica e da castra\u00e7\u00e3o, mostra que o problema musical de uma maquinaria da voz implicava necessariamente a aboli\u00e7\u00e3o da robusta m\u00e1quina dual, isto \u00e9, da forma\u00e7\u00e3o molar que distribui as vozes em \u201chomem ou mulher\u201d. [Nota de rodap\u00e9 77: Dominique Fernandez, <em>La rose des Tudors<\/em>, Julliard (e o romance <em>Porporino<\/em>, Grasset). Fernandez cita a m\u00fasica pop como um retorno t\u00edmido \u00e0 grande m\u00fasica vocal inglesa. Seria preciso, com efeito, considerar as t\u00e9cnicas de respira\u00e7\u00e3o circular, quando se canta inspirando e expirando, ou de filtragem de som conforme zonas de resson\u00e2ncia (nariz, testa, ma\u00e7\u00e3s do rosto \u2014 utiliza\u00e7\u00e3o propriamente musical do rosto).] Ser homem <em>ou<\/em> mulher n\u00e3o existe mais em m\u00fasica. N\u00e3o \u00e9 certeza, no entanto, que o mito do andr\u00f3gino invocado por Fernandez seja suficiente. N\u00e3o se trata de mito, mas de devir real. \u00c9 preciso que a pr\u00f3pria voz atinja um devir-mulher ou um devir-crian\u00e7a. E est\u00e1 nisso o prodigioso conte\u00fado da m\u00fasica. Sendo assim, como o nota Fernandez, n\u00e3o se trata de imitar a mulher ou de imitar a crian\u00e7a, mesmo se \u00e9 uma crian\u00e7a que canta. \u00c9 a pr\u00f3pria voz musical que se torna crian\u00e7a, mas, ao mesmo tempo, a crian\u00e7a se torna sonora, puramente sonora. Jamais crian\u00e7a alguma teria podido faz\u00ea-lo ou, se o faz, \u00e9 tornando-se tamb\u00e9m outra coisa que n\u00e3o crian\u00e7a, crian\u00e7a de um outro mundo estranhamente celeste e sensual. Em suma, a desterritorializa\u00e7\u00e3o \u00e9 dupla: a voz desterritorializa-se num devir-crian\u00e7a, mas a pr\u00f3pria crian\u00e7a que ela se torna \u00e9 desterritorializada, inengendrada, est\u00e1 em devir-. \u201cAsas deram impulso \u00e0 crian\u00e7a\u201d, diz Schumann. Reencontramos o mesmo movimento de ziguezague nos devires-animais da m\u00fasica: Mareei More mostra como a m\u00fasica de Mozart \u00e9 atravessada por um devir-cavalo, ou por devires-p\u00e1ssaro. Mas nenhum m\u00fasico se diverte \u201cfazendo-se\u201d de cavalo ou de p\u00e1ssaro. O bloco sonoro n\u00e3o tem por conte\u00fado um devir-animal sem que o animal ao mesmo tempo n\u00e3o se torne em sonoridade alguma outra coisa, algo de absoluto, a noite, a morte, a alegria \u2014 certamente n\u00e3o uma generalidade nem uma simplicidade, mas uma hecceidade, a morte que est\u00e1 aqui, a noite que est\u00e1 ali. A m\u00fasica toma por conte\u00fado um devir-animal; mas o cavalo, por exemplo, adquire a\u00ed, como express\u00e3o, as pequenas batidas de timbale, aladas como tamancos que v\u00eam do c\u00e9u ou do inferno; e os p\u00e1ssaros tomam express\u00e3o em grupetos (<em>gruppeti<\/em>), apojaturas, notas picadas que fazem deles almas. [Nota de rodap\u00e9 78: Marcel More, <em>Le dieu Mozart e le monde des oiseaux<\/em>, Gallimard.] O que forma a diagonal em Mozart s\u00e3o os acentos, primeiro os acentos. Se n\u00e3o seguimos os acentos, se n\u00e3o os observamos, reca\u00edmos num sistema pontual relativamente pobre. O homem m\u00fasico desterritorializa-se no p\u00e1ssaro, mas \u00e9 um p\u00e1ssaro ele mesmo desterritorializado, \u201ctransfigurado\u201d, um p\u00e1ssaro celeste que entra num devir tanto quanto aquilo que entra num devir com ele. O capit\u00e3o Ahab est\u00e1 engajado num devir-baleia irresist\u00edvel com Moby Dick; mas \u00e9 preciso ao mesmo tempo que o animal, Moby Dick, torne-se pura brancura insustent\u00e1vel, pura muralha branca resplandecente, puro fio de <strong>prata<\/strong> que se estende e se torna flex\u00edvel \u201ccomo\u201d uma mo\u00e7a, ou se retorce como um chicote, ou ergue-se como um parapeito. Pode ser que a literatura alcance \u00e0s vezes a pintura, e at\u00e9 a m\u00fasica? E que a pintura alcance a m\u00fasica? (More cita os p\u00e1ssaros de Klee; em compensa\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o compreende Messiaen quanto ao canto dos p\u00e1ssaros). Nenhuma arte \u00e9 imitativa, n\u00e3o pode ser imitativa ou figurativa: suponhamos que um pintor \u201crepresente\u201d um p\u00e1ssaro; de fato, \u00e9 um devir-p\u00e1ssaro que s\u00f3 pode acontecer \u00e0 medida que o pr\u00f3prio p\u00e1ssaro esteja em vias de devir outra coisa, pura linha e pura cor. De modo que a imita\u00e7\u00e3o destr\u00f3i a si pr\u00f3pria, \u00e0 medida que aquele que imita entra sem saber num devir que se conjuga com o devir daquilo que ele imita, sem que ele o saiba. S\u00f3 se imita, portanto, caso se fracasse, quando se fracassa. Nem o pintor e nem o m\u00fasico imitam um animal; eles \u00e9 que entram em um devir-animal, ao mesmo tempo que o animal torna-se aquilo que eles queriam, no mais profundo de seu entendimento com a Natureza. [Nota de rodap\u00e9 79: Vimos que a imita\u00e7\u00e3o podia ser concebida como uma semelhan\u00e7a de termos culminando num arqu\u00e9tipo (s\u00e9rie), ou como uma correspond\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es constituindo uma ordem simb\u00f3lica (estrutura); mas o devir n\u00e3o se deixa reduzir nem a uma nem a outra. O conceito de <em>mimesis<\/em> \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 insuficiente, mas radicalmente falso.]. Que o devir funcione sempre a dois, que aquilo em que nos tornamos entra num devir tanto quanto aquele que dev\u00e9m, \u00e9 isso que faz um bloco, essencialmente m\u00f3vel, jamais em equil\u00edbrio. O quadrado perfeito \u00e9 o de Mondrian, que bascula numa ponta e produz uma diagonal entreabrindo seu fechamento, arrastando um e outro lado. (Deleuze e Guattari 1997 [1980]:105-7)<\/p>\n<p>DELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. 1997 [1980]. 1730 \u2013 Devir-intenso, devir-animal, devir-impercept\u00edvel. (Trad.: Suely Rolnik) In: <em>Mil plat\u00f4s: capitalismo e esquizofrenia 2<\/em>. Volume 4. Rio de Janeiro: Editora 34, pp.11-113.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O devir-mulher, o devir-crian\u00e7a da m\u00fasica aparecem no problema de uma maquina\u00e7\u00e3o da voz. Maquinar a voz \u00e9 a primeira opera\u00e7\u00e3o musical. Sabe-se como o problema foi resolvido na m\u00fasica ocidental, na Inglaterra e na It\u00e1lia, de duas maneiras diferentes: de um lado, a voz de cabe\u00e7a da contralto, que canta \u201cpara al\u00e9m de sua voz\u201d, ou cuja voz trabalha [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":1212,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1460","page","type-page","status-publish","hentry"],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1460","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1460"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1460\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1461,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1460\/revisions\/1461"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1212"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1460"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}