{"id":1451,"date":"2023-03-31T01:10:54","date_gmt":"2023-03-31T01:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?page_id=1451"},"modified":"2023-03-31T01:12:12","modified_gmt":"2023-03-31T01:12:12","slug":"prata-e-ouro-em-deleuze-e-guattari-1999-1980","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/projetos\/a-agencia-social-dos-elementos-quimicos\/levantamentos-da-presenca-de-elementos-quimicos-em-livros\/prata-e-ouro-em-deleuze-e-guattari-1999-1980\/","title":{"rendered":"Prata e ouro em Deleuze e Guattari (1999 [1980])"},"content":{"rendered":"<p>II. Neste caso, ao contr\u00e1rio, o muro branco se afila, fio de <strong>prata<\/strong> que vai em dire\u00e7\u00e3o ao buraco negro. Um buraco negro \u201caglutina\u201d todos os buracos negros, todos os olhos, todos os rostos, ao mesmo tempo em que a paisagem \u00e9 um fio que se enrola em sua extremidade final em torno do buraco. \u00c9 sempre uma multiplicidade, mas \u00e9 uma outra figura do destino: o destino subjetivo, passional, refletido. \u00c9 o rosto, ou a paisagem <em>mar\u00edtima<\/em>: ele segue a linha de separa\u00e7\u00e3o do c\u00e9u e das \u00e1guas, ou da terra e das \u00e1guas. Esse rosto autorit\u00e1rio est\u00e1 de perfil, e escorre para o buraco negro. Ou dois rostos face a face, mas de perfil para o observador, e cuja reuni\u00e3o j\u00e1 se encontra marcada por uma separa\u00e7\u00e3o ilimitada. Ou os rostos que se desviam, sob a trai\u00e7\u00e3o que os arrebata. Trist\u00e3o, Isolda, Isolda, Trist\u00e3o, na barca que os conduz at\u00e9 o buraco negro da trai\u00e7\u00e3o e da morte. Rostidade da consci\u00eancia e da paix\u00e3o, redund\u00e2ncia de resson\u00e2ncia ou de acoplamento. Dessa vez o close n\u00e3o tem mais por efeito o de aumentar uma superf\u00edcie que ele encerra ao mesmo tempo, n\u00e3o tem mais por fun\u00e7\u00e3o um valor temporal antecipat\u00f3rio. Ele marca a origem de uma escala de intensidade, ou faz parte dessa escala, incita a linha que os rostos seguem, na medida tamb\u00e9m em que eles se aproximam do buraco negro como t\u00e9rmino: close Eisenstein contra close Griffith (o aumento intensivo da dor ou da c\u00f3lera, no close do <em>Encoura\u00e7ado Potenkim<\/em>) [Nota de rodap\u00e9 13: Sobre a maneira pela qual o pr\u00f3prio Eisenstein distingue sua concep\u00e7\u00e3o do close e a de Griffith, cf. <em>Film Form<\/em>.]. V\u00ea-se, ainda a\u00ed, que todas as combina\u00e7\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis entre as duas figuras-limites do rosto. No Lulu de Pabst, o rosto desp\u00f3tico de Lulu deca\u00edda se conecta com a imagem da faca de p\u00e3o, imagem de valor antecipat\u00f3rio que anuncia o assassinato; mas tamb\u00e9m o rosto autorit\u00e1rio de Jack o Estripador passa por toda uma escala de intensidades que o leva \u00e0 faca e ao assassinato de Lulu. [&#8230;] Mais geralmente, ser\u00e3o observadas caracter\u00edsticas comuns \u00e0s duas figuras-limites. Por um lado, por mais que o muro branco, as grandes bochechas brancas sejam o elemento substancial do significante, e o buraco negro, os olhos, sejam o elemento refletido da subjetividade, eles est\u00e3o sempre juntos, mas sob os dois modos nos quais ora os buracos negros se repartem e se multiplicam no muro branco, ora, ao contr\u00e1rio, o muro, reduzido \u00e0 sua crista ou ao seu fio de horizonte, se precipita em dire\u00e7\u00e3o a um buraco negro que os aglutina todos. N\u00e3o h\u00e1 muro sem buracos negros, n\u00e3o h\u00e1 buraco sem muro branco. Por outro lado, tanto em um caso quanto no outro, o buraco negro \u00e9 essencialmente margeado, e mesmo sobremargeado; tendo o contorno, como efeito, seja o de aumentar a superf\u00edcie do muro, seja o de tornar mais intensa a linha; e o buraco negro jamais est\u00e1 nos olhos (pupila), est\u00e1 sempre no interior da borda, e os olhos est\u00e3o sempre no interior do buraco: olhos mortos, que veem ainda melhor quando est\u00e3o dentro do buraco negro. [Nota de rodap\u00e9 14: Esse \u00e9 um tema corrente do romance de terror e da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: os olhos est\u00e3o no buraco negro e n\u00e3o o inverso (\u201cvejo um disco luminoso emergir desse buraco negro, como se fossem olhos\u201d). As est\u00f3rias em quadrinho, por exemplo <em>Circus<\/em> n<sup>o<\/sup> 2, apresentam um buraco negro povoado de rostos e de olhos e a travessia desse buraco negro. Sobre a rela\u00e7\u00e3o dos olhos com os buracos e os muros, cf. os textos e desenhos de J.L. Parant, especialmente <em>Les yeux MMDVI<\/em>, Bourgois.] . Essas caracter\u00edsticas comuns n\u00e3o impedem a diferen\u00e7a-limite das duas figuras de rosto, e as propor\u00e7\u00f5es segundo as quais ora uma, ora a outra, predominam na semi\u00f3tica mista \u2014 o rosto desp\u00f3tico significante terrestre, o rosto autorit\u00e1rio passional e subjetivo mar\u00edtimo (o deserto pode ser tamb\u00e9m mar da terra). Duas figuras do destino, dois estados da m\u00e1quina de rostidade. Jean Paris apresentou o exerc\u00edcio desses polos na pintura, do Cristo desp\u00f3tico ao Cristo passional: por um lado o rosto do Cristo visto de frente, como em um mosaico bizantino, com o buraco negro dos olhos sobre fundo de ouro, sendo toda a profundidade projetada para a frente; por outro lado, os rostos que se cruzam e se desviam, de tr\u00eas quartos ou de perfil, como em uma tela do Quattrocento, com olhares obl\u00edquos tra\u00e7ando linhas m\u00faltiplas, integrando a profundidade no pr\u00f3prio quadro (podem-se tomar exemplos arbitr\u00e1rios de transi\u00e7\u00e3o e de mixagem: a <em>Convoca\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3stolos<\/em>, de Duccio, em paisagem aqu\u00e1tica, onde a segunda f\u00f3rmula j\u00e1 conduz o Cristo e o primeiro pescador, ao passo que o segundo pescador permanece preso ao c\u00f3digo bizantino. [Nota de rodap\u00e9 15: Cf. As an\u00e1lises de Jean Paris, <em>L\u2019espace et le regard<\/em>, ed. du Seuil, I, cap. I (igualmente, a evolu\u00e7\u00e3o da Virgem e a varia\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de seu rosto com o do menino Jesus: II, cap. II)]). (Deleuze e Guattari 1999 [1980]:52-4)<\/p>\n<p>DELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. 1999 [1980]. Ano zero &#8211; rostidade. (Trads.: Ana L\u00facia de Oliveira; L\u00facia C. Le\u00e3o) In: <em>Mil plat\u00f4s: capitalismo e esquizofrenia 2<\/em>. Volume 3. Rio de Janeiro: Editora 34, pp.31-61.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>II. Neste caso, ao contr\u00e1rio, o muro branco se afila, fio de prata que vai em dire\u00e7\u00e3o ao buraco negro. Um buraco negro \u201caglutina\u201d todos os buracos negros, todos os olhos, todos os rostos, ao mesmo tempo em que a paisagem \u00e9 um fio que se enrola em sua extremidade final em torno do buraco. \u00c9 sempre uma multiplicidade, mas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":1212,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1451","page","type-page","status-publish","hentry"],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1451","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1451"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1451\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1452,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1451\/revisions\/1452"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1212"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}