{"id":1437,"date":"2023-03-31T00:01:28","date_gmt":"2023-03-31T00:01:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?page_id=1437"},"modified":"2023-03-31T00:02:19","modified_gmt":"2023-03-31T00:02:19","slug":"ferro-em-deleuze-e-guattari-1997-1980","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/projetos\/a-agencia-social-dos-elementos-quimicos\/levantamentos-da-presenca-de-elementos-quimicos-em-livros\/ferro-em-deleuze-e-guattari-1997-1980\/","title":{"rendered":"Ferro em Deleuze e Guattari (1997 [1980])"},"content":{"rendered":"<p>Por exemplo: n\u00e3o imitar o c\u00e3o, mas compor seu organismo com <em>outra coisa<\/em>, de tal modo que se fa\u00e7a sair, do conjunto assim composto, part\u00edculas que ser\u00e3o caninas em fun\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de movimento e repouso, ou da vizinhan\u00e7a molecular nas quais elas entram. Evidentemente, essa outra coisa pode ser muito variada, e depender mais ou menos diretamente do animal em quest\u00e3o: pode ser o alimento natural do animal (a terra e o verme), pode ser suas rela\u00e7\u00f5es exteriores com outros animais (tornar-se cachorro com gatos, tornar-se macaco com um cavalo), pode ser um aparelho ou pr\u00f3tese que o homem lhe imp\u00f5e (focinheira, r\u00e9deas, etc)., pode ser algo que n\u00e3o tenha mais nem mesmo rela\u00e7\u00e3o \u201clocaliz\u00e1vel\u201d com o animal considerado. Para este \u00faltimo caso, vimos como Slepian funda sua tentativa de devir-cachorro na ideia de cal\u00e7ar sapatos em suas m\u00e3os, amarr\u00e1-los com sua boca-cara. Philippe Gavi cita as performances de Lolito, comedor de garrafas, lou\u00e7as e porcelanas, de <strong>ferro<\/strong>, e at\u00e9 de bicicletas, que declara: \u201cConsidero-me metade bicho, metade homem. Mais bicho talvez do que homem. Adoro os bichos, os cachorros sobretudo, sinto-me ligado a eles. Minha denti\u00e7\u00e3o adaptou-se; de fato, quando n\u00e3o como vidro ou <strong>ferro<\/strong>, meu maxilar me d\u00e1 coceira como o de um cachorrinho com vontade de ficar mordiscando um osso\u201d [Nota de rodap\u00e9 45: Philippe Gavi, \u201cLes philosophes du fantastique\u201d, em <em>Lib\u00e9ration<\/em>, 31 de mar\u00e7o de 1977. Para os casos precedentes, seria preciso conseguir compreender certos comportamentos ditos neur\u00f3ticos em fun\u00e7\u00e3o dos devires-animais, ao inv\u00e9s de remeter os devires-animais a uma interpreta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica desses comportamentos. N\u00f3s o vimos no caso do masoquismo (e Lolito explica que a origem de suas proezas est\u00e1 em certas experi\u00eancias masoquistas; um belo texto de Christian Maurel conjuga um devir-macaco e um devir-cavalo num casal masoquista). Seria preciso considerar tamb\u00e9m a anorexia do ponto de vista do devir-animal.]. Interpretar a palavra \u201ccomo\u201d \u00e0 maneira de uma met\u00e1fora, ou propor uma analogia estrutural de rela\u00e7\u00f5es (homem-<strong>ferro<\/strong> = cachorro-osso), \u00e9 n\u00e3o compreender nada do devir. A palavra \u201ccomo\u201d faz parte dessas palavras que mudam singularmente de sentido e de fun\u00e7\u00e3o a partir do momento em que as remetemos a hecceidades, a partir do momento em que fazemos delas express\u00f5es de devires, e n\u00e3o estados significados nem rela\u00e7\u00f5es significantes. Pode ser que um cachorro exercite seu maxilar no <strong>ferro<\/strong>, mas ent\u00e3o ele exercita seu maxilar como \u00f3rg\u00e3o molar. Quando Lolito come <strong>ferro<\/strong>, \u00e9 inteiramente diferente: ele comp\u00f5e seu maxilar com o <strong>ferro<\/strong> de modo que ele pr\u00f3prio se torne um maxilar de cachorro-molecular. O ator De Niro, numa sequ\u00eancia de filme, anda \u201ccomo\u201d um caranguejo; mas n\u00e3o se trata, ele diz, de imitar o caranguejo; trata-se de compor com a imagem, com a velocidade da imagem, algo que tem a ver com o caranguejo [Nota de rodap\u00e9 46: Cf. <em>Newsweek<\/em>, 16 de maio de 1977, p. 57.]. E \u00e9 isso o essencial para n\u00f3s: ningu\u00e9m dev\u00e9m-animal a n\u00e3o ser que, atrav\u00e9s de meios e de elementos quaisquer, emita corp\u00fasculos que entrem na rela\u00e7\u00e3o de movimento e repouso das part\u00edculas animais, ou, o que d\u00e1 no mesmo, na zona de vizinhan\u00e7a da mol\u00e9cula animal. Ningu\u00e9m se torna animal sen\u00e3o molecular. Ningu\u00e9m se torna cachorro molar latindo, mas, ao latir, se isso \u00e9 feito com bastante cora\u00e7\u00e3o, necessidade e composi\u00e7\u00e3o, emite-se um cachorro molecular. O homem n\u00e3o se torna lobo, nem vampiro, como se mudasse de esp\u00e9cie molar; mas o vampiro e o lobisomem s\u00e3o devires do homem, isto \u00e9, vizinhan\u00e7as entre mol\u00e9culas compostas, rela\u00e7\u00f5es de movimento e repouso, de velocidade e lentid\u00e3o, entre part\u00edculas emitidas. \u00c9 claro que h\u00e1 lobisomens, vampiros, diz\u00ea-mo-lo de todo cora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o procure a\u00ed a semelhan\u00e7a ou a analogia com o animal, pois trata-se do devir-animal em ato, trata-se da produ\u00e7\u00e3o do animal molecular (enquanto que o animal \u201creal\u201d \u00e9 tomado em sua forma e sua subjetividade molares). \u00c9 em n\u00f3s que o animal mostra os dentes como o rato de Hoffmanstahl, ou a flor, suas p\u00e9talas, mas \u00e9 por emiss\u00e3o corpuscular, por vizinhan\u00e7a molecular, e n\u00e3o por imita\u00e7\u00e3o de um sujeito, nem proporcionalidade de forma. Albertine pode imitar uma flor o quanto quiser, mas \u00e9 quando ela dorme, e comp\u00f5e-se com as part\u00edculas do sono, que sua pinta e o gr\u00e3o de sua pele entram numa rela\u00e7\u00e3o de repouso e movimento que a coloca na zona de um vegetal molecular: devir-planta de Albertine. E \u00e9 quando est\u00e1 prisioneira que ela emite as part\u00edculas de um p\u00e1ssaro. E \u00e9 quando foge, quando se lan\u00e7a em sua linha de fuga, que ela se torna cavalo, mesmo que seja o cavalo da morte. (Deleuze e Guattari 1997 [1980]:65-7)<\/p>\n<p>DELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. 1997 [1980]. 1730 \u2013 Devir-intenso, devir-animal, devir-impercept\u00edvel. (Trad.: Suely Rolnik) In: <em>Mil plat\u00f4s: capitalismo e esquizofrenia 2<\/em>. Volume 4. Rio de Janeiro: Editora 34, pp.11-113.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por exemplo: n\u00e3o imitar o c\u00e3o, mas compor seu organismo com outra coisa, de tal modo que se fa\u00e7a sair, do conjunto assim composto, part\u00edculas que ser\u00e3o caninas em fun\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de movimento e repouso, ou da vizinhan\u00e7a molecular nas quais elas entram. 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