{"id":1419,"date":"2023-03-30T22:51:55","date_gmt":"2023-03-30T22:51:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?page_id=1419"},"modified":"2023-03-31T00:03:44","modified_gmt":"2023-03-31T00:03:44","slug":"hidrogenio-helio-silicio-e-carbono-em-deleuze-e-guattari-1997-1980","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/projetos\/a-agencia-social-dos-elementos-quimicos\/levantamentos-da-presenca-de-elementos-quimicos-em-livros\/hidrogenio-helio-silicio-e-carbono-em-deleuze-e-guattari-1997-1980\/","title":{"rendered":"Hidrog\u00eanio, h\u00e9lio, sil\u00edcio e carbono em Deleuze e Guattari (1997 [1980])"},"content":{"rendered":"<p>Mas, se e\u0301 verdade que a droga remete a essa causalidade perceptiva molecular, imanente, resta toda a questa\u0303o de saber se ela consegue efetivamente trac\u0327ar o plano que condiciona seu exerci\u0301cio. Ora, a linha causal da droga, sua linha de fuga, na\u0303o para de ser segmentarizada na forma, a mais dura possi\u0301vel, da depende\u0302ncia, do dopar-se, da dose e do traficante. Mesmo que em sua forma flexi\u0301vel ela possa mobilizar gradientes e limiares de percepc\u0327a\u0303o de modo a determinar devires-animais, devires-moleculares, tudo se faz ainda numa relatividade de limiares que se contenta em imitar um plano de consiste\u0302ncia em vez de trac\u0327a\u0301-lo num limiar absoluto. Para que serve perceber ta\u0303o depressa quanto um pa\u0301ssaro ra\u0301pido, se a velocidade e o movimento continuam a fugir alhures? As desterritorializac\u0327o\u0303es permanecem relativas, compensadas pelas reterritorializac\u0327o\u0303es as mais abjetas, de modo que o impercepti\u0301vel e a percepc\u0327a\u0303o na\u0303o param de perseguir-se ou de correr um atra\u0301s do outro sem nunca acoplar-se de fato. Em vez de os buracos no mundo permitirem que as pro\u0301prias linhas do mundo fujam, as linhas de fuga enrolam-se e po\u0303em-se a rodopiar em buracos negros, cada drogado em seu buraco, grupo ou indivi\u0301duo, como um caramujo. Caindo mais no buraco do que no barato. As micropercepc\u0327o\u0303es moleculares sa\u0303o recobertas de antema\u0303o, conforme a droga considerada, por alucinac\u0327o\u0303es, deli\u0301rios, falsas percepc\u0327o\u0303es, fantasmas, surtos paranoicos, restaurando a cada instante formas e sujeitos, como fantasmas ou duplos que na\u0303o parariam de obstruir a construc\u0327a\u0303o do plano. Bem mais, e\u0301 como ouvimos anteriormente na enumerac\u0327a\u0303o dos perigos: o plano de consiste\u0302ncia na\u0303o so\u0301 corre o risco de ser trai\u0301do ou desviado sob a influe\u0302ncia de outras causalidades que interve\u0301m num tal agenciamento, mas o pro\u0301prio plano engendra seus pro\u0301prios perigos de acordo com os quais ele se desfaz ao longo de sua construc\u0327a\u0303o. Na\u0303o somos mais, ele mesmo na\u0303o e\u0301 mais <em>senhor das velocidades<\/em>. Em vez de fazer um corpo sem o\u0301rga\u0303os suficientemente rico ou pleno para que as intensidades passem, as drogas erigem um corpo vazio ou vitrificado, ou um corpo canceroso: a linha causal, a linha criadora ou de fuga, vira imediatamente linha de morte e de abolic\u0327a\u0303o. A abomina\u0301vel vitrificac\u0327a\u0303o das veias, ou a purule\u0302ncia do nariz, o corpo vi\u0301treo do drogado. Buracos negros e linhas de morte, as adverte\u0302ncias de Artaud e de Michaux se juntam (mais te\u0301cnicas, mais consistentes do que o discurso so\u0301cio-psicolo\u0301gico, ou psicanali\u0301tico, ou informacional, dos centros de assiste\u0302ncia e de tratamento). Artaud dizendo: voce\u0302 na\u0303o evitara\u0301 as alucinac\u0327o\u0303es, as percepc\u0327o\u0303es erro\u0302neas, os fantasmas descarados ou os maus sentimentos, como tantos buracos negros nesse plano de consiste\u0302ncia, pois tua conscie\u0302ncia ira\u0301 tambe\u0301m nessa direc\u0327a\u0303o cheia de armadilhas [Nota de rodap\u00e9 56: Artaud, <em>Les Tarakumaras<\/em>, (<em>Euvres compl\u00e8tes<\/em>, t. IX, pp. 34-36.]. Michaux dizendo: voce\u0302 na\u0303o sera\u0301 mais senhor de tuas velocidades, voce\u0302 entrara\u0301 numa corrida louca do impercepti\u0301vel e da percepc\u0327a\u0303o, que gira mais em falso ainda porque tudo ai\u0301 e\u0301 relativo [Nota de rodap\u00e9 57: Michaux, <em>Mise\u0301rable miracle<\/em>, p. 164 (\u201cRester maitre de sa vitesse\u201d).]. Voce\u0302 ira\u0301 inchar de si mesmo, perder o controle, estar num plano de consiste\u0302ncia, num corpo sem o\u0301rga\u0303os, mas exatamente no lugar onde voce\u0302 na\u0303o parara\u0301 de deixa\u0301-los escapar, esvaziar, e de desfazer o que voce\u0302 faz, farrapo imo\u0301vel. Que palavras mais simples do que \u201cpercepc\u0327o\u0303es erro\u0302neas\u201d (Artaud), \u201cmaus sentimentos\u201d (Michaux), para dizer no entanto a coisa mais te\u0301cnica: como a causalidade imanente do desejo, molecular e perceptiva, fracassa no agenciamento-droga. Os drogados na\u0303o param de recair naquilo de que eles queriam fugir: uma segmentaridade mais dura a\u0300 forc\u0327a de ser marginal, uma territorializac\u0327a\u0303o mais artificial ainda porque ela se faz sobre substa\u0302ncias qui\u0301micas, formas alucinato\u0301rias e subjetivac\u0327o\u0303es fantasma\u0301ticas. Os drogados podem ser considerados como precursores ou experimentadores que retrac\u0327am incansavelmente um novo caminho de vida; mas mesmo sua prude\u0302ncia na\u0303o tem as condic\u0327o\u0303es da prude\u0302ncia. Enta\u0303o, ou eles recaem na coorte de falsos hero\u0301is que seguem o caminho conformista de uma pequena morte e um longo cansac\u0327o. Ou enta\u0303o, pior ainda, eles so\u0301 tera\u0303o servido para lanc\u0327ar uma tentativa que so\u0301 pode ser retomada e aproveitada por aqueles que na\u0303o se drogam ou que na\u0303o se drogam mais, que retificam secundariamente o plano sempre abortado da droga, e descobrem pela droga o que falta a\u0300 droga para construir um plano de consiste\u0302ncia. Seria o erro dos drogados o de partir do zero a cada vez, seja para tomar droga, seja para abandona\u0301-la, quando se precisaria partir para outra coisa, partir \u201cno meio\u201d, bifurcar no meio? Conseguir embriagar-se, mas com a\u0301gua pura (Henry Miller). Conseguir drogar-se, mas por abstenc\u0327a\u0303o, \u201ctomar e abster-se, sobretudo abster-se\u201d, eu sou um bebedor de a\u0301gua (Michaux). Chegar ao ponto onde a questa\u0303o na\u0303o e\u0301 mais \u201cdrogar-se ou na\u0303o\u201d, mas que a droga tenha mudado suficientemente as condic\u0327o\u0303es gerais da percepc\u0327a\u0303o do espac\u0327o e do tempo, de modo que os na\u0303o-drogados consigam passar pelos buracos do mundo e sobre as linhas de fuga, exatamente no lugar onde e\u0301 preciso outros meios que na\u0303o a droga. Na\u0303o e\u0301 a droga que assegura a imane\u0302ncia, e\u0301 a imane\u0302ncia da droga que permite ficar sem ela. E\u0301 covardia, coisa de aproveitador, esperar que os outros tenham se arriscado? Antes retomar uma empreitada sempre pelo meio, mudar seus meios. Necessidade de escolher, de selecionar a boa mole\u0301cula, a mole\u0301cula de a\u0301gua, a mole\u0301cula de <strong>hidroge\u0302nio<\/strong> ou de <strong>he\u0301lio<\/strong>. Na\u0303o e\u0301 uma questa\u0303o de modelo, todos os modelos sa\u0303o molares: e\u0301 preciso determinar as mole\u0301culas e as parti\u0301culas em relac\u0327a\u0303o a\u0300s quais as \u201cvizinhanc\u0327as\u201d (indiscernibilidade, devires) engendram-se e se definem. O agenciamento vital, o agenciamento-vida, e\u0301 <em>teoricamente ou logicamente<\/em> possi\u0301vel com toda espe\u0301cie de mole\u0301culas, por exemplo o <strong>sili\u0301cio<\/strong>. Mas acontece que esse agenciamento na\u0303o e\u0301 <em>maquinicamente<\/em> possi\u0301vel com o <strong>sili\u0301cio<\/strong>: a ma\u0301quina abstrata na\u0303o o deixa passar, porque ele na\u0303o distribui as zonas de vizinhanc\u0327a que constroem o plano de consiste\u0302ncia [Nota de rodap\u00e9 58: Sobre as possibilidades do <strong>sili\u0301cio<\/strong>, e sua relac\u0327a\u0303o com o <strong>carbono<\/strong>, do ponto de vista da qui\u0301mica orga\u0302nica, cf. o artigo \u201cSilicium\u201d in <em>Encyclopedia Universalis<\/em>.]. Veremos que as razo\u0303es maqui\u0301nicas sa\u0303o totalmente diferentes das razo\u0303es ou possibilidades lo\u0301gicas. Na\u0303o se trata de conformar-se a um modelo, mas de insistir numa linha. Os drogados na\u0303o escolheram a boa mole\u0301cula ou a boa linha. Toscos demais para captar o impercepti\u0301vel, e para devir impercepti\u0301veis, eles acreditaram que a droga lhes daria o plano, quando e\u0301 o plano que deve destilar suas pro\u0301prias drogas, permanecer senhor das velocidades e das vizinhanc\u0327as. (Deleuze e Guattari 1997:79-81)<\/p>\n<p>DELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. 1997 [1980]. 1730 \u2013 Devir-intenso, devir-animal, devir-impercept\u00edvel. (Trad.: Suely Rolnik) In: <em>Mil plat\u00f4s: capitalismo e esquizofrenia 2<\/em>. Volume 4. Rio de Janeiro: Editora 34, pp.11-113.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas, se e\u0301 verdade que a droga remete a essa causalidade perceptiva molecular, imanente, resta toda a questa\u0303o de saber se ela consegue efetivamente trac\u0327ar o plano que condiciona seu exerci\u0301cio. Ora, a linha causal da droga, sua linha de fuga, na\u0303o para de ser segmentarizada na forma, a mais dura possi\u0301vel, da depende\u0302ncia, do dopar-se, da dose e do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":1212,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1419","page","type-page","status-publish","hentry"],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1419"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1419\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1441,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1419\/revisions\/1441"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1212"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}